Entramos na Copa sabendo que não
tínhamos chance de ganhar a taça. Entramos na Copa conscientes de que o
Ancelotti teve pouco tempo para fazer com que os jogadores se tornassem time,
depois de um período turbulento em que a o futebol sofreu várias interferências
que eram tudo, menos esportivas. Entramos na Copa com vários jogadores
lesionados pouco tempo antes da convocação e outros, depois dos primeiros jogos.
Passamos nas eliminatórias de raspão e perdemos alguns jogos amistosos
realizados. Brasileiros teimosos que somos, depois da abertura da Copa
começamos a acreditar piamente que traríamos o hexa, que a taça era nossa... Não
queríamos dar asas à razão, queríamos sonhar, curtir o momento e acreditar que,
mesmo contra todas as evidências, seríamos campeões!
Com certeza, a Copa traz uma energia
diferente, boa de se viver! São goles de alegria que bebemos a cada fim de jogo
com a vitória de nossa seleção! São litros de esperança que engolimos e que, de
forma mágica, vão diretamente ao coração, curando nosso complexo de cucaracha,
afastando-nos de tudo o que nos angustia ou aborrece na nossa vida de todo dia.
Mesmo que de forma inconsciente, transferimos para a Seleção, na Copa, a
certeza do sonho realizado, ainda que individualmente, possamos somar
frustrações e, como sociedade, vivamos encurralados entre a violência e o
abismo social. O período da Copa do mundo é a fase anestésica que a gente quer
que dure para sempre e, não sejamos ingênuos, isso é alimentado por muita
gente, com interesses os mais diversos.
Deixando o coração falar, o fato é que
todos nós queríamos o hexa! Alguns, cegamente; outros, conscientes das
dificuldades, mas com a fé que move montanhas; outros ainda, pensando nos sonhos
das crianças ou na desejada alegria dos idosos.... Somos brasileiros e brasileiro
sonha, acredita, vibra, voa alto... Só que depois cobra, julga, pega pesado,
sem piedade.
Não sou profunda conhecedora da
filosofia nem das regras do futebol, mas gosto e assisto bastante. Não entendo
de estratégias, de formas de jogar, mas conheço um pouco sobre pessoas. E
é sobre elas que quero falar! Para mim, a Seleção não jogou mal, a bola foi
teimosa. Houve um pênalti perdido (quem nunca?), bolas não encontraram a
direção do gol ou terminaram nas mãos do goleiro. Faz parte do jogo. Saiamos da
ilusão de que somos capazes de controlar tudo. Os jogos de futebol não têm
controle remoto... Eu tinha certeza, contudo, de que os momentos seguintes
seriam de bombardeios contra o técnico e os jogadores. Dito e feito: heróis
viraram vilões! É sempre assim! Queremos herói infalíveis, não jogadores de futebol.
Da fala dos críticos superpoderosos
(eles sabem tudo!), a pergunta que mais me chamou atenção foi a que questionava
se Vini Junior deveria ter pegado a bola para o pênalti ou obedecido à comissão
técnica. Como assim, gente? Senso de hierarquia, noção de limites ficam onde,
gente? Não “vale tudo”, não! Existem regras a serem cumpridas, existem
lideranças a serem respeitadas.
Ainda sobre as falas dos comentaristas, fiquei
chocada (sim, essa é a palavra) quando um deles comentou que aquele era o dia
mais triste da vida dele. Que vida pequena, pensei!
Hoje de manhã, navegando pelo Instagran,
ouvi a Carol Lobak falando que os noruegueses ganharam porque sempre tiveram o
que comer, nunca precisaram comer miojo com salsicha nem nunca precisaram
correr de tiroteios. Ela a trouxe uma série de exemplos de diferenças entre a
história de cada um daqueles que entraram em campo. A camisa da Seleção pesa, a
da Noruega, não. Sabem por quê? Porque os noruegueses estavam representando seu
país, disputando uma partida de futebol, enquanto os brasileiros estavam
carregando a responsabilidade de levar alegria e atender aos anseios de toda
uma população, sobretudo das crianças mais pobres. Quando eles entram em campo,
carregam o peso de representar um país onde tudo gira em torno de comparações
com as lendas do futebol do século passado e, mais do que isso, o peso de tudo
o que viveram, do que sonharam, do que sofreram e não querem decepcionar suas
famílias, seus amigos, nem os milhões de torcedores brasileiros que veem neles,
heróis que eles não são!
Não estou com isso trazendo os jogadores
para um lugar de vitimização nem nada parecido. São responsáveis pelos erros
que cometeram em campo, mas não são culpados por destruir os sonhos de ninguém.
Vemos a torcida dos times africanos
aplaudirem seus times ao marcarem um único gol. Em paralelo, guardando as
devidas proporções, nós só sabemos cobrar, temos uma dificuldade enorme de
elogiar, de ressaltar o que é bom e quando ressaltamos, escrevemos de lápis e
apagamos tão logo venha a primeira decepção.
Nós cobramos dos jogadores, a
responsabilidade pelas 5 estrelas bordadas na camisa, fruto de uma história que
a maioria deles nem viu acontecer... Eu
me pergunto: são mesmo eles, os jogadores, os responsáveis por essa desmedida
tristeza que sentimos? Sabemos que ganhar e perder faz parte de qualquer jogo,
mas não admitimos erros.
Nós queremos heróis, queremos gênios, nós
queremos que os jogadores representem o que há de mais bonito em nosso povo,
não queremos que pessoas comuns nos representem.
Sabem o que eu acho? Penso que nós, brasileiros,
somos corresponsáveis pela derrota contra a Noruega. Por quê? Porque colocamos
pedras nas camisas desses jovens. Em momento algum conseguimos enxergar a
Seleção como um time de futebol que defende seu país. Alguns achavam que Neymar
seria o gênio da lâmpada que, com seus superpoderes, nos traria a taça. Outros
tantos clamavam por Endrick, um menino de 19 anos, como o salvador da Pátria...
A gente não queria um time de futebol com bons jogadores. Queríamos um grupo de
super-heróis! Alguém consegue ser empático e imaginar o que Endrick sentiu
quando se jogou no chão depois do gol perdido? Alguém consegue, por alguns
segundos, imaginar o que se passou na cabeça do Bruno quando perdeu o pênalti?
Com certeza, nenhum dos dois pensou: perdi um gol. Pensaram: quantas pessoas
estou decepcionando?...
A minha percepção é de que nunca mais
seremos campeões enquanto focarmos na “tradição” da nossa camisa, enquanto
buscarmos heróis e vilões em vez de simplesmente torcer e exigir um trabalho
sério, de longo prazo, com os jogadores. Um time não se faz em dois meses. É
preciso compartilhar experiências e expectativas, criar vínculos, internalizar os
direcionamentos, acolher a liderança e construir junto com ela, construir um
espaço comum de desenvolvimento, desenhar o caminho e caminhar junto.
Deixo para os especialistas, a análise técnica
do que aconteceu, na perspectiva de aprendizados e não de caça às bruxas
Deixo um pedido para cada um de nós,
para que repensemos nossa expectativa em relação aos jogadores da Seleção e
redimensionemos nossos sentimentos em relação ao hexa, ao hepta ou a nos mantermos
penta por mais um tempo. O que é nosso e o que é do jogo?
Deixo o desejo de que (me perdoem os
críticos e os técnicos), para além da técnica e das estratégias, os responsáveis
pela estrutura do futebol permitam que esses jovens possam colocar “o coração
na chuteira” e jogar futebol resgatando a alegria dos meninos de pés descalços nos
campos de várzea de suas comunidades, com alegria e leveza, apenas com a preocupação
de jogar bem, não de prestar contas. Acredito que só assim construirão uma nova
história, tendo o passado apenas como aprendizado e o olhar focado no amanhã.
Renata Villela
