domingo, 22 de maio de 2011

Bem aventurada Dulce dos pobres
Renata Villela


I
Chuva de bênçãos,
vento do Espírito,
força de Deus.
Grito da natureza,
diante de toda beleza
de quem tanto sofreu,
de quem tanto amou,
de quem tanto se deu,
de quem tanto ajudou
aos pobres.

Mais que palavras,
mais que ornamentos,
um rito de fé e união.
Mais que honrarias,
mais que homenagens,
legado em obras e oração.

Pessoas irmanadas
num mesmo sentimento
de gratidão;
pessoas comungando
a mesma fé,
em oração.
Pessoas igualadas,
aos pobres desemparados,
sem teto, com frio,
molhados, sem proteção.

Pobres se encontrando,
rezando por Irmã Dulce,
o anjo bom da Bahia,
do mundo, da humanidade.
Pobres de coração,
aquecidos na emoção
de viver o grande encontro
do amor que cria laços
nos braços da eternidade.


II
Bem aventurada Dulce dos pobres,
bem aventurada mulher de oração,
bem aventurada guerreira da justiça,
bem aventurada irmã dos Alagados,
bem aventurada peregrina das calçadas,
bem aventurada Dulce em missão.


Bem aventurada devota de Antônio,
bem aventurada seguidora de Francisco,
bem aventurada servidora dos pobres,
bem aventurada protetora dos doentes,
bem aventurada humilde e persistente
bem aventurada Rita do Senhor.

Bem aventurada mulher de tanto amor,
bem aventurada Dulce, que se esvaziou
bem aventurada a que se preencheu
por Deus.
Bem aventurada irmã que se entregou,
bem aventurada quem nunca se negou
a ajudar os crucificados das ruas.
Bem aventurada Dulce de Jesus,
bem aventurada irmã, aos pés da cruz,
bem aventurada Dulce dos desabrigados,
bem aventurada amiga dos desempregados.

Bem aventurada discípula do Amor,
bem aventurada apóstola do Senhor,
bem aventurada, frágil e tão forte,
bem aventurada quem desafiou a morte.
Bem aventurada a que doou a vida,
bem aventurada a irmã querida,
bem aventurada mulher de atitude,
bem aventurada a humilde caminhante,
bem aventurada a pequena gigante
protetora dos necessitados.

Bem aventurada Dulce dos pobres,
bem aventurada Dulce dos povos,
bem aventurada Dulce de Deus.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Começa o tempo da viagem interior



É tempo de Quaresma, ainda que, aqui em Salvador, até agora haja trios tocando e gente pulando, aproveitando o finalzinho da folia. Para muitos, já é dia de trabalho. Para todos nós, indistintamente, é o início de um tempo que nos convida à reflexão, à interiorização e à oração.
O sofrimento de Jesus é algo que incomoda... Muitos de nós preferem "pular" o calvário e a crucifixão e viver só a ressurreição. Mas não foi assim! Não é assim! E é importante sentir que a ressurreição só tem sentido porque houve sofrimento. Deus, em nenhum momento, quis uma presença mágica entre nós. Da mesma forma que nasceu do ventre de uma mulher, Jesus passou por todos os sentimentos humanos, a alegria, a amizade, o companheirismo, a decepção, a dor - do corpo e da alma,o medo, a solidão, o abandono, todos sentimentos que O levaram a nos conhecer profundamente. E a nos amar incondicionalmente!
Não é o sofrimento, a experiência da quaresma! É o amor incondicional! O amor que foi capaz de dar a vida por todos nós e por cada um individualmente. Jesus se entregou sem medir consequências para que fôssemos envolvidos pela misericórdia do Pai, perdoados e acolhidos em seu Reino. Conosco, deixou a responsabilidade da co-criação de um mundo novo, de um tempo de paz, de uma sociedade fraterna e igual. Tão longe estamos disso.... E assim mesmo, Ele nos ama e deseja estar ardentemente conosco! Por isso, o foco de nosso mergulho não é o sofrimento, mas o amor.
A minha experiência nesse tempo de quaresma, nos últimos anos, tem sido de mais recolhimento, de encontro com esse Jesus 100% humano que me compreende, me aceita e me ama como eu sou. O meu desejo para esse tempo que se inicia é de que eu consiga ficar mais em sintonia com Ele, tenha o coração aberto para escutá-Lo, sinta Sua presença libertadora em minha vida, não a me poupar das dificuldades e sofrimentos que a vida traz (muitos deles frutos de minhas ações e/ou omissões) mas a me mostrar o significado de cada momento. Quero senti-Lo presente a todo segundo, na certeza de que, nos meus momentos de mais profunda solidão, Ele está comigo! E isso muda tudo!
Começa a quaresma e eu me proponho, mais uma vez, viver esse tempo e colher dele tudo o que ele tem a me dar. Quero mergulhar nas profundezas de minha alma e "catar" as impurezas que me impedem de ser uma pessoa melhor. Chegar até elas, reconhecer que existem em mim, pedir perdão por tê-las deixado ocupar espaço em meu coração e me esforçar para cuidar melhor do que permito chegar a mim...E habitar em mim!
Quero, diante de tudo o que Jesus viveu e ensinou, perdoar verdadeiramente àquelas pessoas que ainda trago marcadas em meu coração com um "x" e sentir a alma lavada com a graça do AMor que tudo perdoa e tudo ama.
Quero me reconhecer frágil, vulnerável, pequena e sentir que é dEle que vem minha força, minha coragem e tudo o que posso ser e fazer de bom. Quero sentir a Sua Graça em mim para que eu possa, não por minha causa nem por causa de ninguém, ter o discernimento para fazer o que precisa ser feito para que o Reino se faça verdade.
Quando eu era menor, achava uma bobagem essa coisa de jejum, de penitência...Hoje não mais! Há alguns anos faço alguma experiência de jejum, mas não do sacrifício pelo sacrifício, mas em busca do eixo principal de minha vida. As perguntas que me faço e que tenho me feito são sempre essas: 
- Quem é o centro da minha vida?
- O que é essencial para mim?
- Quem é o dono de minha atitudes?
Com base nessas perguntas, me proponho a abrir mão de coisas que gosto muito e que tenho a sensação de não conseguir viver sem elas. Ao longo desse tempo, vou me questionando sobre as dificuldades que enfrento, sobre as minhas prioridades, sobre o que tenho feito de minha vida em relação aos meus pontos de equilíbrio. O que me aproxima e o que me distancia do Reino.
Por outro lado, não é tempo só de abrir mão do que não é essencial, mas de resgatar o que verdadeiramente o é. Penso na Palavra e nos convites que Jesus nos fez para amarmos verdadeiramente uns aos outros. Então, penso em alguém que estou com dificuldades de relacionamento e invisto num olhar diferente, captando dessas dificuldades, o que é minha responsabilidade. E tento melhorar minha relação com essa pessoa.
São pequenas coisas que me ajudam a revisar minha vida. São atitudes que me chamam de volta para o que é realmente importante e que, muitas vezes, vou deixando escapar ao longo dos dias, nos embaraços de meu corre-corre. 
Vejo a Quaresma como uma oportunidade de renovação, tempo de deixar morrer o "eu velho" para renascer uma pessoa melhor, depois de beber da Fonte e resgatar o real significado de minha vida.
Convido cada um a viver essa experiência! Faz bem ! Ficamos mais leves, renovamos nossa força e esperança e amadurecemos na fé!
Que seja esse um tempo de oração, de revisão de vida, de comunhão com o Deus que nos ama incondicionalmente e de resgate do "para quê" estamos aqui !
Renata Villela / Março de 2011

terça-feira, 8 de março de 2011

Dia das mulheres de todos dias


Esse é um dia que sempre me toca fundo ao coração, não por ser um dia de homenagens, mensagens bonitas e rosas perfumadas. Hoje é um dia especial para mim porque me faz pensar que todo grito contra injustiças vale à pena e que mesmo que, algumas vezes, seja preciso dar a vida por uma causa, a história resgata exemplos de coragem e luta.
Hoje é um dia especial para mim porque, a partir da lembrança de grandes mulheres que deixaram suas marcas na história, sinto que há esperança e que muitas outras mulheres hão de vir, deixando novas marcas e escrevendo novos capítulos da história da humanidade que, apesar de tão controversa, há de ser melhor.

Apesar de todos os apelos da mídia, hoje é um dia (apesar de ser carnaval) para enxergar a mulher não apenas pelo corpo mas, sobretudo, pelo conteúdo e pela essência. As mulheres frutas passarão, os corpos esculpidos por botox e silicone em algum momento vão deixar escapar as marcas do tempo, mas o que as mulheres pensaram, fizeram, construíram...Ah, isso fica!

Independente de opção política, de religião, de nacionalidade, o que mais quero hoje é relembrar nomes que fizeram diferença na história de nosso planeta, algumas mais famosas que outras, algumas com um trabalho de maior vulto do que de outras, mas todas elas, mulheres que venceram preconceitos, superaram obstáculos e contribuíram para algo melhor.

Hoje quero lembrar grandes mulheres como Santa Teresa de Ávila que rompeu com os paradigmas de seu tempo em prol do resgate da verdadeira igreja. Hoje quero lembrar de Maria Quitéria, Ana Néri, Anita Garibaldi... Hoje eu quero lembrar de Zilda Arns, Irena Sendler, Teresa de Calcutá, Chiara Lubich, Irmã Dulce, Irmã Dorothy, Cora Coralina, Indira Gandhi, Edith Stein, Mercedes Sosa, mulheres que seja pela política,por suas obras sociais, pela religião ou pelas artes não morrerão jamais!

Hoje quero lembrar também de mulheres vivas que vêm, ao longo do tempo, construindo caminhos com base nas suas convicções pessoais e que também contribuem para que mostremos que o sexo frágil tem a força da sensibilidade que enxerga o mundo com olhos mais profundos e, assim, se arriscam a dar passos a frente: Indrid Betancourt, Ruth Cardoso, Dilma Rousseff, Maria Betânia, Angelina Jolie, Dora Leal Rosa, Fernanda Montenegro...E tantas outras!

Mas hoje quero lembrar também todas as mulheres que não tem nome público, que não estão na mídia nem fizeram coisas de grande impacto mas que, nas suas profissões, nas suas famílias, no seu dia-a-dia, através das pequenas coisas, transformam vidas, melhoram situações, contribuem para uma sociedade mais justa, fazem acontecer um tempo de amor (amor concreto, de atitudes) aqui e agora.

Sei que essas mulheres têm vários nomes, vários apelidos, moram em diferentes bairros de diferentes cidades de diversos países, mas acredito que, registrando aqui nomes de mulheres que marcaram e marcam minha vida, estarei acolhendo num grande abraço todas as MULHERES, fortes e frágeis, que trazem encanto junto com coerência, perseverança junto com paciência, determinação junto com solidariedade e consciência crítica junto com sensibilidade, tudo para, entre todas as limitações e imperfeições, viverem o exercício de amar.

Assim, hoje quero lembrar das mulheres que admiro, que respeito e que amo. Quero escrever, sem ordem lógica, os nomes das tantas mulheres que passaram pela minha vida e assinaram partes de minha história: Fernanda, Regina, Letícia, Lúcia, Silvana, Cristina, Inês, Angela, Vera, Grace, Juliana, Maria José, Maria Luiza, Maria de Guadalupe, Marta, Angélica, Ana Luísa, Ana Maria, Suyan, Delcy, Iráide, Yeda, Héclia, Vilma, Magali, Cleidir, Liana, Cláudia, Mônica, Geracy, Cristiane, Ilze, Roberta, Márcia, Glória, Simone, Rosana, Rita, Teresa, Eny, Janine, Sylvia, Sineide, Neide, Ana Paula, Ana Lúcia, Deisy, Deborah, Eliane, Sônia e tantas e tantas outras, graças a Deus !



Que Deus abençoe a todas as mulheres num abraço de amor maternal e que Maria, mãe de Jesus, seja referência para a vida de todas nós, MULHERES! Independente de religião, que seja ela referência de humildade e coerência, de obediência e ousadia, de compreensão e sabedoria, de doação e acolhimento, de serviço e despojamento, de coragem e força.


Renata Villela, em 08/03/2011

domingo, 12 de dezembro de 2010

domingo, 5 de dezembro de 2010

Mensagem para um NOVO Natal


Mais um ano vai chegando ao fim e, mais uma vez, somos levados a fazer uma retrospectiva sobre o que fizemos e o que deixamos de fazer. Ampliando o horizonte de nosso olhar, viajamos com as rotações da Terra e contemplamos mais uma translação que se conclui. Com esse olhar, nos damos conta de que melhoramos muito pouco no cuidado ao planeta e a cada um de seus habitantes. Estamos longe de ser a “grande família humana” !
Nesse ano, a natureza nos respondeu com clareza e objetividade: o Haiti, o Chile, a Indonésia... Até a Europa se viu encoberta pelas fumaças de um vulcão! Culpamos os países ricos e seus governantes...Mas essa é uma questão em que todos nós, indistintamente, temos nossa parcela de responsabilidade.
Incrível é que vamos e voltamos e caímos na mesma cilada que persegue a humanidade há milênios: a disputa entre nossas escolhas, a supremacia do ter(quando colocado como prioridade, que estimula o consumo desenfreado e nos consome como pessoas) sobre o ser.
E pensar que há mais de 2000 anos, Jesus nos questionava sobre essas prioridades e nos falava do que é realmente essencial. Não acredito que não tenhamos compreendido suas palavras... Compreendemos, sim!
Acontece que a Palavra desestabiliza, incomoda, inquieta. A Palavra nos impede de continuar no mesmo lugar, focados em nossos umbigos. É mais fácil nos fazer de surdos!
Nas nossas andanças e descaminhos, conseguimos até descolorir o significado verdadeiro da palavra AMOR. Passamos a encontrar “pirataria” de amor em diversas prateleiras e tememos o preço do amor original. Porque esse amor, o verdadeiro, tem autoria, faz de nós sujeitos de nossas histórias, nos compromete com a vida e nos movimenta ao encontro das pessoas.
O amor, com todas as letras maiúsculas, é um exercício que nos leva a não impor condições para nossas atitudes e nos faz superar diferenças. O amor verdadeiro implica em desapego, em perdão,em reconciliação, em amizade, em trabalho voluntário, em doação – não de bens, mas do que temos de mais precioso em nós. Não é fácil, apesar de ser simples!
O fato é que temos deixado esse amor guardado no fundo de nossas gavetas. Enquanto isso, assustamo-nos com os acontecimentos. Em vários momentos, quando nos vemos diante de grandes catástrofes, de cenas de violência inimagináveis, da guerra do tráfico, das gritantes diferenças sociais, do diversos exemplos de preconceito e de discriminação, comentamos entre nós: é o fim do mundo!
Mas Deus é Pai ! De verdade! E nos ama tanto que, independente dos Natais, dos dezembros, Ele sempre bate nas portas de nossos corações, pedindo um cantinho para nascer. Ele não desiste de nós ! E essa é a fonte de nossa esperança em um mundo melhor !
Abrir as portas de nossos corações é levantar do sofá e encarar o mundo que nos espera. O trabalho que nos espera. Deixá-lo nascer em nossos corações é assumir o amor, exercitando-o em gestos concretos.
Daremos um cantinho para que Ele nasça em nós ?
Maria e José disseram sim. Os magos e pastores disseram sim. Os apóstolos disseram sim. E nós? Que resposta queremos dar ?
Vamos encarar o imprevisível e usar nossos dons para tornar possível uma sociedade mais justa ?
Vamos abrir nossas portas e caminhar ao encontro de outras pessoas, somando nossas diferenças e construindo a fraternidade verdadeira?
Ou optaremos por continuar diante das TVs e dos computadores, lamentando o rumo dos acontecimentos?

A escolha é sempre nossa: passar pelos natais, comprando presentes e curando as ressacas que ficam ou aceitar o Menino Jesus como nosso presente mais precioso e viver o Natal todos os dias de todos os meses, em todos os anos !
Viver o Natal é abrir o coração ao que não passa quando vem dEle: a alegria, o amor e a paz. E de coração aberto, renovamos nosso sim e nos desinstalamos. Viver o Natal é ouvir o choro do Menino e sentir que o Amor nasceu e precisa transbordar de nós. Somente quando transbordamos amor, descobrimos verdadeiramente o significado da vida.
Assim, ainda que venha o cansaço e as dores, ainda que nos vejamos diante de obstáculos aparentemente intransponíveis, sempre encontraremos forças, sempre seremos movidos por algo além de nós, que nos faz acreditar num mundo mais digno do ser humano, numa sociedade mais justa e ética. E porque acreditamos, trabalhamos por esse mundo, por essa sociedade.
É Natal! 
 Nova translação se inicia ! Que consigamos preservar a natureza e cuidar melhor uns dos outros.
Feliz jornada para todos nós! Que a estrela nos guie a todos os corações-manjedouras para que, juntos, natalizemos o mundo.
Do amor, nasce a paz! É amando concretamente que nos transformamos em instrumentos da paz.
Que sejamos, então, instrumentos de paz, operários desse mundo mais bonito, sonhado e desejado por todos nós.

Renata Villela / Dezembro - 2010

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Arte de viver em missão, missão de viver com a arte - PARTE II

Sempre ruminando o sentido de minha caminhada, vou e volto com meus pensamentos que encontram seu ponto de chegada (e também de partida!) em meu coração.
Especialmente nesse momento não tenho como falar em missão sem resgatar a presença de pessoas que têm seguido de mãos dadas comigo, para que melhor eu possa fazer o que me cabe e compreender o que não é meu; sobretudo, redimensionando o que vem de mim e o que é dEle.
É no coração que mergulho e experimento a alegria de tantos encontros... Tão bom é sentir a presença de pessoas tão lindas em minha vida ! Pessoas que me ajudaram a enxergar melhor os sinais de Deus ao longo de meu caminho, a compreender o significado de colocar meus dons a serviço, "dando de graça o que de graça recebi" e a sentir a felicidade de caminhar saboreando o sentido mais pleno da palavra comunhão.
Em comunhão com esses anjos que Deus colocou em meu caminho, sinto a presença dEle cada dia mais entranhada em minha vida e me dou conta de que não há como estar em comunhão com as pessoas sem sentir a presença de Deus, nem como estar em comunhão com Deus sem caminhar ao encontro das pessoas. Para mim, felicidade é isso. É essa essência que dá sentido à vida, independente dos contextos em que nos inserimos no dia-a-dia. As coisas passam, só o que é de Deus fica. E dá sustentação!
Quando olho para trás e me deixo levar pelas lembranças de minha adolescência e do início de minha vida adulta, vejo claramente o desenho que Deus fez, o mapa que Ele traçou para que eu fosse a Renata sonhada por Ele. Olhando pra trás, vejo as tantas curvas que fiz para me desviar desse caminho, quantas vezes teimei em não ouvir o que, insistentemente, Ele cochichava em meu ouvido, temei em não enxergar o que Ele claramente colocou diante de meus olhos. Mas Deus é Amor e, em sua infinita bondade, no meio de todos os meus descaminhos, Ele me deu o presente mais lindo que eu nunca sequer sonhara ter: uma filha linda!

Por essa filha entreguei minha vida por muitos anos e nunca me arrependi disso, pelo contrário, ela foi a presença viva da esperança, a certeza do amor de Deus por mim, a mola que me permitiu transpor barreiras que, com minhas próprias forças, eu não conseguiria transpor. E foi pelas mãos dessa filha linda, que eu retornei à igreja. Uma igreja diferente da que eu conhecia antes, uma igreja família, uma igreja que me apresentou o Jesus que nos reúne como amigos.
Não posso, dessa forma, falar de minha missão, sem falar do OPA (Oração pela Arte), uma inspiração do Espírito Santo que Pe Irala acolheu e, por ela, tem dado sua vida.
Encontrar o OPA foi o primeiro passo para o reencontro comigo mesma, com tudo o que tenho de mais bonito e o que tenho de mais feio, com todos os dons que Ele me deu de presente e todos os limites que a minha humanidade alimentou durante anos. A partir dos ideais do OPA: criatividade, integração e comunicação, eu comecei a me sentir abençoada por Deus e convidada por Jesus para viver uma vida nova.

No OPA, encontrei amigos maravilhosos, mais que amigos, irmãos de verdade ! Irmãos que viveram ao meu lado os momentos mais críticos e difíceis de minha vida. No OPA, senti na pele que amor verdadeiro transcende os limites de tempo e espaço. Essa família tem me ajudado a "renascer" dia-a-dia, com a certeza de que Deus faz maravilhas em nossas vidas quando nos permitimos abrir o coração uns para os outros, bebendo da fonte primeira de Seu Amor. Apesar da tentação para citar nomes, não vou fazê-lo pelo risco de ser injusta, esquecendo de citar alguém.
No OPA, descobri a alegria de transformar meus sentimentos, meu olhar sobre a vida e sobre as pessoas em palavras, palavras a serem lidas, palavras a serem cantadas, palavras a serem rezadas. Palavras que fizeram com que eu me sentisse muito mais perto das pessoas, de Deus, de minha família, palavras que deram um sentido novo ao meu trabalho, à minha vocação, à minha caminhada.
A partir do OPA, e mais especificamente da amizade com um "anjo bom", comecei uma nova etapa da minha vida: um caminho para águas mais profundas. Daí eu conheci os exercícios espirituais de Santo Inácio e passei a sentir Deus como experiência a ser vivida no mais íntimo de meu coração e não como idéia a ser compreendida, discutida ou analisada. Tudo mudou, começou minha mais profunda metamorfose!
Comecei a me sentir virando uma página e escrevendo um novo capítulo de minha vida quando me aproximei dessa pessoa MUITO especial, que me ajudou demais, com seu exemplo de vida e sua experiência de Deus, a sair do fundo do poço quando encostei meus pés lá.
Com ela, descobri caminhos novos,aprendi a saborear a beleza do silêncio, a riqueza da vida espiritual. Através de suas orientações, fui tirando a poeira dos baús onde guardava meus tesouros mais preciosos e lá, nesses baús, encontrei o meu amigo mais amado, Aquele que me puxou pelo fio do cabelo e me disse:

"Vem,deixa o coração viver,
vida que amanheceu,
amanhece com a canção.
A canção
vinda de dentro de ti,
com o azul irá sorrir,
deixa a paz amanhecer".


Essa pessoa especial foi quem me apresentou a Madre Amada, Teresa de Ávila. Ler e contemplar a vida de Santa Teresa foi mais que uma bênção, ou melhor, É mais que uma bênção.
Essa pessoa especial, que se tornou minha mãe espiritual, ainda me presenteou com uma nova família que também compartilha comigo cada conquista e cada escorregada nesse caminho que nem sempre é fácil, mais é cheio de significado SEMPRE.
Estou escrevendo tudo isso para dizer que é impossível sentir o chamado pessoal que Jesus nos faz e seguir com determinação pelos caminhos para os quais Ele nos chama, sem referências, sem a companhia de PESSOAS , sem oração.
Deus tem sido muito generoso comigo, tantos anjos que Ele tem colocado para seguir comigo pelos caminhos e descaminhos da vida.
Amigos nos ajudam a não perder o prumo e a nos dão as mãos para chegarmos onde é preciso. Referências nos lembram aqueles que já encontraram o prumo, lembrando-nos que santos não são os perfeitos mas os imperfeitos que se deixaram moldar por Deus. E a oração nos alimenta e dá sentido aos nossos passos. Beber da Fonte é fundamental, é a base para o verdadeiro serviço que nos traz a certeza de que somos instrumentos dEle, nada a mais!

Essa segunda parte de minhas reflexões sobre missão tem conteúdos muito pessoais colocados aqui, isso com um único objetivo: o de lembrar que Jesus nos chama a viver em comunidade e não podemos - se quisermos realmente servir a Ele - nos fechar em nossos quadrados e só olhar para nossos umbigos. De quebra, vai o reconhecimento e o agradecimento mais sincero a todas as pessoas que, com sua amizade e amor, tem me acompanhado a cada passo.


CONVIVER, esse é o grande livro da vida ! Esse foi o fio da meada que me permitiu desenrolar minha vida, esse é o aprendizado mais perfeito e a melhor prática do evangelho em nós: a prática da humildade e do perdão, do amor doação, da entrega despretenciosa, da consciência de que Ele é "o caminho, a verdade e a vida" e é preciso que diminuamos para que Ele cresça... Porque essa é a única forma de vivermos, com todos os limites de nossa humanidade (que Ele tanto ama!), o maior de todos os mandamentos, que é a verdadeira missão de todos nós:
"Que nos amemos uns aos outros, como ELE nos amou"

sábado, 6 de novembro de 2010

Arte de viver em missão, missão de viver com a arte - PARTE 1





É sempre muito bom quando sentimos que estamos fazendo o que é para ser feito, que nosso trabalho é resposta ao chamado que Jesus nos faz. Isso é missão !
Aprendi, nas minhas buscas e andanças, que missão não é nada excepcional, nada que nos exija mais do que temos, nada que doa... Pode até doer, mas não dói porque é missão; dói pela dureza de tantos corações, dói porque a humanidade se desviou do rumo. 
Missão é algo bom e natural! Missão é simples, apesar de nem sempre ser fácil. Missão traz consolação, traz alegria, ainda que pelo meio do caminho choremos. Missão é o reconhecimento de sermos torneiras de Deus e, assim sendo, abrirmo-nos para que a Água Viva sacie a sede de quem quer que seja (inclusive a nossa própria). Viver a Missão é reconhecer a Graça e, na humildade de quem sabe que Tudo vem dEle, jorrar o Dom que nos foi dado para o bem comum.
Vocação e missão sempre foram temas que me instigaram, até o dia em que naturalmente, aprendi a OLHAR o que realmente importava e descobri, através dos sinais que Deus foi me mostrando, que servir a partir do que eu sou, do que eu sei, do que eu sinto e do que eu faço era cumprir a minha missão. A partir daí, vocação e missão passaram a ser temas que me animam.




Servir deixa de ter um peso quando a gente descobre - EM ORAÇÃO - que nós somos apenas instrumentos e que estamos, simplesmente, entregando aos outros o que Ele colocou em nossas mãos. Não há o que temer, não tem porque vacilar, nem muito menos do que se envaidecer ou se orgulhar... Nossa parcela é mínima diante do Infinito que vem de Deus. É o Espírito Santo que faz acontecer, que transforma corações, vidas, grupos, comunidades. 
É preciso mesmo que diminuamos para que Ele cresça e, numa sociedade que incentiva a competitividade, que estimula o inchaço do ego, que alimenta o amor ao próprio umbigo no engano de que o nome disso é auto-estima, isso não é fácil. Mas é simples se nos alimentarmos da oração que nos traz a exata dimensão de quem somos: filhos muito amados de Deus! 
O que pode ser mais importante do que isso?
Consolados por sermos amados com o amor mais mais puro e verdadeiro, não precisamos de elogios públicos nem de olhares em nossa direção. Ficamos felizes pela graça de sermos torneiras ! Ficamos felizes por contribuir para que corações se saciem da Água que passa por nós, mas que não nasce em nós.
Não precisamos nos preocupar nem competir com outras torneiras porque, a partir desse novo olhar, o que mais nos importa é apenas e simplesmente sermos a melhor torneira que pudermos ser. Quem vem a nós não precisa olhar os nossos detalhes, precisa, sim, sentir o quanto é bom beber da água fresca.


Filhos amados de Deus que respondem ao chamado que Ele nos faz. Como é bom nos sentirmos assim! E Ele chama ao pé do ouvido, de um a um. Isso é o que é mais bonito. Ele sabe quem somos, o que podemos, Ele reconhece nosso potencial e está atento aos nossos espinhos, Ele sabe que não somos perfeitos....Ah, aí está o grande lance: é exatamente por sermos imperfeitos, pecadores, que Ele nos chama e é assim, com nossos erros, com nossos espinhos, com nossas doenças, com nossos limites, que Ele nos quer servindo. Cada uma dessas coisas não é empecilho para nossa missão, pelo contrário, é ferramenta que nos possibilita a aproximação com cada um, porque somos todos iguais (e todos diferentes!).
Cumprir nossa missão não é fazer um favor a Deus! Responder ao chamado que Jesus nos faz não é um algo mais que fazemos, não é expressão de nossa bondade. Servir, dando de graça o que de graça recebemos, é nosso agradecimento ao amor Maior que nos faz ser quem somos. Recebemos tanto, somos tão amados ! Quando olhamos a vida assim, quando sentimos a consolação da Graça de Deus em nós, começamos a viver nossa missão com alegria.


Aos poucos, caindo muitas vezes, errando de montão, eu percebi que tudo o que me acontecia tinha a mão de Deus. Hoje sinto que é Ele quem me guia! E porque é Ele que me guia, quando caio, tropeço, me machuco, levanto mais rápido. 
Aos poucos, depois de experimentar um tempo de muito fazer, deixando de lado o encontro pessoal com Jesus e outro tempo de só querer viver intensamente meus momentos de oração, deixando de fazer coisas importantes, consegui ouvir o que Ele insistentemente tentava me dizer ao longo de mais de quarenta anos: tudo na vida é oportunidade de viver em Deus e viver em Deus é viver a vida, em sua essência e seu verdadeiro significado.
Viver a missão é responder ao mandamento mais importante: "Amai-vos uns aos outros". Essa é a grande missão de todos nós. E minha missão pessoal ? 
E minha missão pessoal ? 


"Quero estar com os olhos bem abertos
para ver todos os sinais
escutar a voz que vem do fundo:
Deus falando: "Eu quero muito mais"
Quero, ouvindo o chamado,
seguir o traçado da minha missão,
quero, sorrindo e amando,
responder cantando
à minha vocação"


A missão maior é amar, quero então estar aberta ao amor. Desarmar-me para amar. Amar ! Amar na experiência do encontro íntimo e pessoal com Jesus, no silêncio da oração, que me faz sentir tão amada. Amar na comunhão, na emoção da Eucaristia, amar o Amor que morre para ressuscitar, que se entrega por inteiro, de forma incondicional e me alimenta para mais amar. Amar no cotidiano, na minha família, no meu trabalho, na minha comunidade, no condomínio, na igreja... Amar cozinhando, amar escrevendo, amar ouvindo, amar falando, amar silenciando, amar sorrindo, amar suando. Mas amar sem fazer barulho, como quem abre as janelas de cada coração, deixando que a luz de Deus entre e acorde cada um que está dormindo, com a alegria de que a noite passou e novo dia amanheceu.
Num dia, num momento de oração, Jesus me pediu para fazer isso: abrir janelas de corações. E eu descobri que era essa a minha missão !


Renata Villela, em 06/11/2010