terça-feira, 18 de maio de 2021

Vida




 Vida que brota lentamente
da semente plantada no chão
vida regada por tanta gente
que sabe de sua missão.

Vida que se expande a cada dia
conquistando seu espaço ao sol
vida que passeia, tristeza e alegria,
na direção do Alto, vida-girassol.

Vida que dança, sombra e luz,
conhece etapas, compõe jardins.
Segue livre, sem guias nem gurus,
abraça borboletas, acolhe bem-te-vis.

Semente que morre e faz nascer,
flor que se transforma pra frutificar,
fruto que se doa pra sementes acolher;
folha seca que aduba o chão
que se doa pra nova semente, então, germinar.

Vida que não tem fim, tem não!
Eterno recomeçar


quinta-feira, 13 de maio de 2021

Carta a Meu pai



 Quanta saudade tenho sentido de você! Tenho certeza de que você, pai, está num lugar muito bonito, onde tudo é amor e paz! Todas as dores passaram, toda angústia passou e o que era saudade para você, agora é comunhão! Tendo essa certeza, todas as vezes que meu coração parece esmagado pela dor da saudade e do vazio que você deixou, eu lembro do seu sorriso e isso me acalma.

Como a criança que começa a andar e não mais a engatinhar, como o jovem que vai morar sozinho e descobre a vida de outra forma, eu estou aprendendo a viver sem você.... Tomar meu café e não mais preparar seu mingau ou o pão esquentadinho... Não mais ouvir o despertador e correr - ainda que no meio de uma reunião - para dar seus remédios na hora certinha...E você ainda ria de mim, porque eu saía correndo de um quarto para o outro, voltando rápido para a reunião.... 

Nos últimos dois meses, você me chamava para tudo e como eu reclamei com você! Pedia ajuda até para pegar o que estava na cabeceira da cama, do seu lado, sempre dizendo que era por causa das dores que você  sentia... E eu brigava, dizendo que você precisava reagir, não podia se entregar à artrose, tinha que se ajudar para ter uma qualidade de vida melhor. Ah, paizinho, eu não tinha ideia de que havia uma doença te corroendo por dentro e que fazia doer muito mais do que eu era capaz de supor... Todos os dias eu peço perdão a você por minha falta de empatia, mas eu sei que você sabia que todas as minhas broncas eram por amor.

Que saudade eu sinto hoje de ouvir sua voz me chamando pra dizer que só queria um beijinho... Que saudade de assistir TV com você e discutir sobre nossos preferidos nos "The Voices" e achar um absurdo o programa do Luciano Hulk, quando a pessoa chegava lá para jogar com "a parede" por uma causa social e perdia tudo... Quando dá 18:00h, todos os dias, eu fico sem saber o que fazer, porque eram as duas horinhas que a gente ficava junto... Na última sexta, na live dos "Ordinarius", eu pedi para eles cantarem "Se eu não te amasse tanto assim" e eles cantaram! Você não estava do meu lado para dizer qual música pedir, mas acho que você deve ter gostado dessa.... Você sempre comentava que era a música mais bonita que Ivete cantava. 

Pois é, pai, amanhã faz um mês que você seguiu seu caminho ao encontro de Deus e eu fico tentando tirar da mente, aquele seu olhar assustado e perdido, de quando saiu de casa naquela maca desconfortável... A gente achava que seria apenas para fazer uns exames. Jamais poderia imaginar que não teria mais você de meu lado.... Como isso ainda me dói! Como poderíamos imaginar que a história fosse tomar um rumo tão diferente, que a COVID batesse em sua porta, levasse você sem nem nos dar a oportunidade de nos despedirmos. 

Que saudade de toda noite rezar a Oração de Irmã Dulce com você (eu continuo rezando)! Que saudade de ter que gritar "boa noite" do meu quarto ou ter que levantar para dar "dez beijos" em sua testa, toda vez que você cismava que eu tinha ido deitar sem falar com você...Saudade de seu olhar cheio de amor, feito menino carente pedindo colo... Me consola a certeza de que - agora - você está no melhor de todos os colos: o da Mãezinha do Ceú!

Você dizia que eu era sua mãezinha... Pois não é que eu sinto falta de você, como pai e como filho? Você não vai acreditar o tanto que eu já chorei de saudade, por esse vazio que você deixou.... Eu sempre tão dura na queda, não é? Dá pra contar nos dedos as vezes que você me viu chorar....Mas, tenha certeza, de que esse choro não é choro de incompreensão, de revolta, de não aceitação....Nada disso ! Tenho tanta certeza de que você está sendo amado como nunca foi! É choro de saudade! É choro de amor! Você sabe que amar dói, mas o que seria da vida sem amor, não é? E poder ter amado você e poder continuar te amando é um privilégio.

Já nos desentendemos muitas vezes, morar junto 29 anos coloca-nos de frente com nosso lado mais espinhoso... Até já nos machucamos mas tudo foi ficando tão pequeno ao longo do tempo que, agora, eu só sinto a alegria de ter sido escolhida para ser sua filha! Com todos os nossos defeitos, com todos os nossos perrengues, a gente viveu intensamente a família que somos.

Se, por um lado, tenho chorado bem mais do que imaginei que choraria, por outro, às vezes me pego dando risada sozinha, lembrando das maluquices que fazíamos juntos e que eram segredo só nosso! Era tão bom quando você dava uma gargalhada por uma palhaçada que eu fazia....É assim que eu guardo você: sorrindo! É assim que você vai viver sempre em nossos corações: sorrindo, se desmanchando em amor por cada um de nós! E eu te peço, pai, que daí de onde você está, pertinho dos anjos e santos, você continue a cuidar de nós.

Te amo para sempre!

quinta-feira, 15 de abril de 2021

Luto, amor, silêncios e palavras.... Uma história

 

Quem me conhece sabe que escrever para mim é oração, é terapia, é transbordamento do que sinto... Tenho uma amiga que diz que “falo pelos dedos”.... Nos últimos tempos, ando meio esvaziada e escrito muito pouco mas, hoje, talvez por ter chegado no auge desse vazio, senti necessidade de tentar transformar em palavras tudo o que está misturado aqui dentro: pensamentos, sentimentos, lembranças, silêncios.... Talvez devesse escrever de mim pra mim, mas sinto vontade de partilhar...




Ontem de manhã, acordei sufocada...Uma angústia e uma tristeza sem tamanho tomaram conta de mim e a única coisa que me veio à mente foi sair de casa para olhar o mar... O dia estava bonito... Tomei café, coloquei todos os aparatos dos protocolos da pandemia e sai... Ainda pensei que não ia dar conta, tem um tempo que parei de caminhar (quase dois meses) e “racionalmente” achei que não fosse conseguir chegar no calçadão da praia...Mas uma força me levava...Eu precisava olhar o mar. Devo ter saído de casa por volta das 7:50h... Chegando na orla, descobri um banco na sombra e ali sentei contemplando o mar... As ondas... Duas músicas ressoavam como mantra: “e diz que se o mar  não tivesse a coragem de na praia morrer, o espetáculo das ondas não iria acontecer” e a música-tema da família Villela “nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia, tudo passa, tudo sempre passará...A vida vem em ondas como o mar num indo e vindo infinito”. Voltei para casa devagarzinho, tomei um banho e fui fazer as coisas do dia... Por volta das 10:30h/11:00h, meu irmão tocou o interfone chorando...Não precisava dizer nada....

Nessa hora, não houve protocolo de Covid que impedisse nosso abraço... Daí em diante, não dá para traduzir em palavras mais nada do que sentimos (e estamos sentindo), do que vivemos (e estamos vivendo).... Detalhe: olhando hoje o atestado de óbito, o falecimento foi às 8:37h. Mesmo fisicamente distantes, estávamos conectados! E sempre estaremos!

Só mais uma coisa quero trazer aqui, antes de falar de meu pai. Na noite anterior, Nanda esteve aqui com Rafael e, na hora de se despedir, eu sempre fico na janela olhando eles saírem, ele olha pra cima e dá tchau, boa noite etc. Quando meu pai estava em casa, fazia isso com nós dois. Nessas últimas semanas, era só comigo. Anteontem, entretanto, ele ficou olhando para o céu, dando tchau e boa noite. Nanda falou pra ele: “Rafa, sua avó está na janela, você está olhando pra onde?” e ele respondeu: “estou falando com o bibi, sei que ele vai me ouvir onde ele está”.

 

É isso: conexões...Amor... Comunhão !

 

Sobre ontem à tarde: estar no cemitério e fazer uma oração de frente para um carro fechado foi muito estranho....Tão estranho que, saindo dali, eu e Nanda fomos ver o por-do-sol. Como a Barra estava cheia de gente (e sem máscaras) vimos o por-do-sol do carro mesmo. Saí por segundos só para fotografar aquele momento que ficará eterno em nossos corações.

 


Desde ontem, muita dor, saudade, aperto no peito, lembranças de momentos bons e ruins que passamos juntos.... Eu e Nanda ficamos todo tempo como se montando um quebra-cabeças da história desse cara que, confesso, não tinha noção do quanto era tão querido! Sentimos uma paz enorme por ele ter tido a oportunidade de receber a unção do enfermos na terça à tarde... A certeza de que todos os seus pecados foram perdoados...Nanda disse que, inclusive, durante a unção, ele teve momentos de lucidez e chegou a falar algumas palavras da Ave Maria. Que bom que ele recebeu esse afago de Deus no coração e pôde voar mais leve ! Obrigada, frei William!

 

Meu pai foi um homem com o coração fora do peito, acho que, por isso, estava mais vulnerável às intempéries da vida. Era um artista nato. Curtia moda, foi artesão de bijuterias e tinha algo de adolescente dentro dele que eu não sei explicar.... Com 14 anos, ele perdeu o pai por um infarto fulminante, dor que nunca cicatrizou dentro dele. Às vezes, eu ficava pensando que esse lado adolescente era resquício desse menino que precisou virar adulto antes da hora. E nessa de ficar adulto antes da hora, ele precisou abandonar muitos sonhos para encarar a “selva de pedra”.... Viver de arte? Impossível! Fez faculdade de Direito e nunca pegou o diploma e enveredou pelo ramo de Comércio Exterior, onde chegou a ser gerente Norte Nordeste de uma empresa. Infeliz com o que fazia. Como tinha contrato especial (não era CLT), quando foi demitido com mais de 50 anos, saiu sem nada.... E numa idade que nenhuma empresa o aceitaria por causa da idade + especialização.... Foi nesse momento que ele juntou os cacos que sobraram e virou “sacoleiro”...Ia para Belo Horizonte comprava coisas na feira de lá e trazia para revender em Salvador (de ônibus!).... Alguns anos sobrevivemos assim e foi justamente nesse tempo que resolvemos juntar nossas durezas e nossas dívidas para dar conta de cada dia. Eu, no auge dos meus vinte e poucos anos trabalhando meio turno, Nanda pequenininha, Rodrigo na faculdade e ele. Sobrevivemos! Muito graças à família e aos amigos, sobrevivemos ! Uma história que daria uma novela com vários capítulos entre dramas e comédias e trilha sonora diversa, mas isso, a gente guarda no canto do coração.... O tempo passou, Rodrigo casou, Nanda casou e, ao longo desses 30 anos de convivência diária, passamos de pai e filha, amigos, a mãe e filho....

 

Eu diria que meu pai tinha 5 grandes paixões (cada uma na sua “prateleira”): a fé - (Nossa Senhora de Fátima, Santa Rita de Cássia e Santa Dulce dos Pobres eram “suas amigas mais queridas”) e a oração do terço era uma prática diária -  a família, os amigos, os jovens e as gatas.

 


Sobre a fé: Graças a ele, conheci Irmã Dulce, pude olhá-la nos olhos, sentir a força de Deus que transbordava dela. Tenho certeza de que ela foi a primeira a recebê-lo no Céu. Graças a ele e a insistência durante a minha infância e adolescência de ir às missas nos domingos às 19:00H (na época), conheci o OPA e, depois, o Escalada. O amor incondicional a Jesus Cristo sempre nos uniu e fortaleceu.

 


Sobre a família: a família era TUDO para ele (algumas vezes eu até falava que era mais do que deveria ser), mas como ele tinha o coração fora do peito, amava de uma forma desmensurada. Um de seus “defeitos” era não conseguir controlar bem o que ganhava....Gastava mais do que tinha para dar presentes! Amava presentear! Do mais simples brinco de camelô a coisas mais caras que ele se enrolava pra pagar.... Como o coração dele se enchia de felicidade ao dar um presente!!! E ai da gente se não gostasse.... Se um de nós adoecia, ele adoecia três vezes mais.... Cada conquista nossa, ele queria divulgar aos quatro cantos... Irradiava orgulho da gente! Quando chegava o Carnaval e os sobrinhos do Rio lotavam a casa, ele se transformava... Houve época de termos 15 pessoas em casa! Uma folia ! Farras inesquecíveis que eu não participava diretamente mas era contagiada fortemente. Como a família do Rio: irmãos, sobrinhos, sobrinhos-netos eram importantes para ele (e para nós!). Vínculos que nunca se abalaram ao longo dos anos de distância física...A cada um somos ETERNAMENTE gratos !O sangue Villela faz toda diferença em nosso jeito de ser e viver.

 


Sobre os amigos e os jovens: a mesma forma como se doava à família, fazia com amigos. Ficaram poucos amigos do tempo de faculdade e do tempo que trabalhou no Rio, mas falava com eles com frequência pelo zap. A grande maioria dos seus amigos eram mais jovens que ele e ele sempre comentava que “não tinha papo” com as pessoas da idade dele.... Dessa forma, os meus amigos se tornaram seus amigos... Ganhou muitos sobrinhos queridos, nessa época, que o chamavam carinhosamente de tio Lula: Liana, Aninha, Soan, Claudinha, Mario, Celso, Luciano, Thais, Kite, André.... Muitos nomes para lembrar agora.... A turma do São Paulo, do Despertar e do Semente... Houve quem não entendesse esse carinho e cuidado dele por esses sobrinhos (o que o fez sofrer muito), mas era um cuidado que se eternizou e, nesses últimos dias, esses sobrinhos vinham procurando e rezando por ele com o mesmo amor de antigamente.... Não dá para traduzir em palavras a força desses reencontros agora, como se a vida fechasse um ciclo com a chave do amor. Continuou a fazer sobrinhos quando entrei para o Meridien: até meu gerente o chamava de tio Lula... Glozinha, Marcinha, Beto, Rosana, Vivaldo, Edson.... Também Ademir....A memória agora teima em falhar, mas cada pessoa que foi tão importante nessa grande família que ele criou está aqui guardada em baú de tesouros.... Depois vieram os netos... Ele sempre apaixonado pela juventude: Rogério e Rafael, Leo Lessa, Gustavo, Gazineu, Lucas, Laura, Nanda e Thiago, Cora, Negão, Xande.... De novo, não vou conseguir lembrar aqui os nomes de todos e me perdoem se esqueci alguém especial.... Todos vocês, amigos-irmãos que se tornaram amigos queridos dele (Angela, Marilu, Verinha, Ernani, Marta, Cris, Cacau, Grace, Tine, Silvana, ......................), sobrinhos e netos, junto com a família “de sangue” fazem hoje uma redoma de amor para mim (e acho que posso estender isso para Digo, Nanda, Piui, Sil, Rafa e Saulo e Rafinha) a nos proteger dessa tempestade. Por causa de vocês e de tudo o que ele nos ensinou, apesar de tudo, conseguimos sentir a brisa suave de Deus nos fazendo lembrar o quanto somos amados e o quanto a vida de meu pai valeu a pena.

 


E as gatas? Elas não saem de perto de mim. Ontem ficaram desesperadas, subindo e descendo da cama dele, se escondendo debaixo da cama dele.... Nesse ponto, só quem tem “família de quatro patas” é capaz de entender....

 

Se vocês me perguntarem por quê ou para quê escrevi tudo isso, não vou saber explicar. Eu precisava escrever, da mesma forma que precisava ter ido olhar o mar ontem.... Talvez, eu precise disso para elaborar melhor tudo o que está acontecendo e para ter a certeza de que todos os momentos difíceis passaram e, agora, ficou só amor. Um amor, confesso, nesse momento, regado de muita dor e saudade, de um vazio sem nome e uma “desvontade” de várias coisas.

Meu pai nasceu no dia do Soldado e foi um guerreiro. Lutou por muitos anos, várias batalhas, a maior e mais duradoura delas, entretanto, foi contra a depressão.... Essa, por mais que tentássemos juntos, ele não conseguiu vencer. Mas eu tenho certeza de que agora, não há mais lágrimas, nem dores, nem sofrimento. Só amor. O Amor misericordioso de Deus, o afago terno da Mãe, o abraço de Santa Dulce e o reencontro com todos os que ele tanto amou e que estavam esperando por ele: vovô, vovó, tio Chuca, Alfredinho, Tia Letícia e tio Pedrinho estão, nesse momento, cantando e fazendo a coreografia de “Como uma Onda” lá em cima. Eu acredito nisso!

Nas minhas orações, eu só pedia pelo bem dele...Não conseguia pedir nada diferente e, apesar de estar doendo demais da conta, tenho certeza de que fui atendida. Ele cumpriu a missão dele aqui.

 

Está doendo muito, muito, muito.... Tem horas que dá vontade de chorar sem parar.... São 30 anos de convivência diária.... Vou ter que aprender a viver sem ele... Aliás, sem ele aqui, fisicamente, porque o que de melhor ele deixou, estará comigo sempre. Desde já peço desculpas se não atendo alguma ligação ou não respondo alguma mensagem. Estou lendo tudo, vendo tudo, sentindo tudo. Vocês podem estranhar alguns conseguirem falar comigo e outros não....São momentos e momentos. Estou num tempo de silenciar, mas o carinho e o amor de vocês é FUNDAMENTAL. Preciso muito de cada um. Rompi minha quietude e solidão para escrever essas palavras... De novo, não sei por quê nem para quê, mas me deixei levar e aqui está esse textão para quem quiser ler.

 


No meio de toda essa dor só tenho recebido amor e acabei descobrindo que, além de Villela, ganhamos muitos outros sobrenomes....Almeida, Bispo, Araujo, Vieira, Santana, Pereira, Cunha, Carvalho, Silva, Sales, Campos, Mayer, Aleluia, Pires, Bastos, Santos, Petrovich, Dantas, Vasconcelos, Cruz, Guedes, Salmazo, Gomes ............ 

Que Deus abençoe cada um de vocês e todas as suas famílias !

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Benditos sejam os artistas...

 



 Tenho escutado, nos últimos dias, muitas críticas aos artistas que fizeram lives no carnaval, como se isso fosse um desrespeito à situação que a população mundial está vivendo.... Tenho escutado, ao longo dos meses de quarentena, muita gente desmerecendo os artistas, como se fossem pessoas que não trabalham e só querem boa vida! Esses comentários me incomodam muito!

 Tenho amigos e conhecidos que são artistas e como os admiro!!! Aliás, admiro todos os artistas, conhecidos ou não: aqueles que suam sangue para sobreviver da arte e aqueles que, infelizmente, tiveram que abrir mão da sua arte para ter seu “pão de cada dia”. Felizes daqueles que tinham suas economias e estão conseguindo passar por essa turbulência sem tantos problemas. Independente de ser a arte também uma profissão, ela é – essencialmente – uma missão de vida! Assim, por todos os artistas – profissionais ou não - escrevo agora! Escrevo por todos os que tiveram sua voz calada, seu sustento cancelado, por todos os que tiveram que se reinventar e se desdobrar para manter acesa a chama da arte que, não só os mantêm, mas NOS mantêm vivos !!!

 Olhando de forma mais abrangente, pela primeira vez, ao longo dos tempos, temos visto o reconhecimento dos profissionais de saúde. Nossos heróis !!! E são !!!! Como são!!! Algumas vezes temos escutado, também, elogios aos professores, sobre o desafio de mudar a forma de ensinar “no tranco”... Nossos heróis!!! E são!!! (Apesar de que eu acho que ainda falta muito para que eles sejam reconhecidos como merecem....) Sei que muitos vão me criticar pelo que vou escrever agora, mas dos artistas, pouco se fala bem! Sim, é isso mesmo! Estou comparando a importância de médicos e professores com a dos artistas! Cada um na sua esfera de importância para a vida. Os profissionais de saúde curam corpo e mente! Usam seu conhecimento e dedicação para manter nossa máquina funcionando da melhor forma... Muitas vezes dando sua própria vida! Professores resgatam o brilho das mentes e desenvolvem os potenciais escondidos em cada ser! Contribuem intensamente para que sejamos PESSOAS e não somente seres vivos. E os artistas? Os artistas tratam e curam a alma a partir do “belo”!!! Sim! Os artistas têm uma conexão com o transcendente, com o que nos une ao Universo e nos conecta a algo maior, dentro e fora de nós: nossas emoções, nossas reações, nossas reflexões. Alimentam sonhos, semeiam a criatividade, cultivam o belo, renovam as energias.

 Como a arte está sendo importante nesses tempos de pandemia! Todas as artes: o teatro, a dança, a gastronomia, a música, as artes visuais, a literatura, o artesanato... Seja através de postagens no instagran, de vídeos no youtube, das páginas de livros, das cadeiras na varanda, da conversa pelo celular.... O exercício da arte – sejamos nós  protagonistas ou expectadores - têm nos mantido vivos! O que seria desses dias de isolamento (para uns mais, para outros menos) se não fosse a arte! O que seria de nós se não fosse aquele livro, amigo de cabeceira, ou aquela live que aquece nosso coração com boa música? O que seria de nós se não fossem os vídeos de youtube ou o caderno de receitas que nos permitiram redescobrir que cozinhar é também prazer? O que seria de nós se não fossem os posts de artistas recitando poesias e criando esquetes para levantar nosso astral? Ou do olhar diferenciado que nos fez aprender a fotografar e admirar fotografias das coisas simples do cotidiano? O que seria de nós sem os filmes, as séries, as novelas? Tem gosto pra tudo e tudo o que nos tira, momentaneamente, da dor de nossa realidade trazendo novas percepções e inspirações está valendo.

 Curtir uma boa live, dançar em casa, cantar no banheiro, nada disso é alienação! Precisamos de pílulas do belo, da arte, de alegria, de ficção para nos manter vivos, sim! Isso não significa que estamos de olhos fechados para a realidade triste que estamos vivendo...Isso não significa falta de visão crítica para os absurdos que vemos e ouvimos...Isso não significa falta de empatia nem de solidariedade com todos os que estão sofrendo e morrendo nos hospitais superlotados. Isso significa que precisamos de ar para respirar, não só de O² mas do ar das coisas que nos relembram que há vida além da dor, que somos seres criativos por excelência e que, por isso mesmo, temos a capacidade de criar novos caminhos a partir de nossas experiências.

 Voltando agora especificamente para o carnaval, não podemos confundir o trabalho dos artistas (nesse momento, fazendo lives) com a irresponsabilidade de quem vai às ruas se aglomerar, sem máscaras, em super festas... O comportamento das pessoas não é responsabilidade do artista. Particularmente, também não compreendo o que leva pessoas a fazerem festas, sem os devidos cuidados, sabendo dos riscos que isso implica para as pessoas à sua volta... Aliás, faço aqui um parênteses: a pandemia está nos dando inúmeras oportunidades de entendermos que somos todos responsáveis pela vida de todos. Pena que tantos estejam deixando essa oportunidade passar ao largo, mantendo o foco da vida em seus umbigos, exclusivamente em seus prazeres pessoais...

 Retomando, agora, o cenário geral, a missão dos artistas, ratifico que esse texto é meu reconhecimento e agradecimento a todos, pela capacidade de resistir às dificuldades impostas, pela coragem de se expor e de se reinventar. Agradeço e reverencio por não desistirem de seus sonhos e nos ajudarem a sonhar também, por – ainda que muitas vezes gratuitamente – manterem a missão de levar arte às pessoas. Levanto-me e os aplaudo de pé, sobretudo, por compreenderem seu papel nesse tempo sombrio e por persistirem na sua lida, lembrando-nos que há vida para além de tantas mortes, que há risos para além de tantas lágrimas e há janelas abertas ao sol apesar de tantas portas fechadas!

sábado, 19 de dezembro de 2020

Mensagem de Natal

 Dezembro chega de um jeito diferente... Menos colorido, menos vibrante... Parece vir coberto de uma nuvem de saudades e medos, de incompreensões e lutos. Chegamos a ele com sede de esperança, de alegria e paz!

 Impossível pensar dezembro sem associá-lo ao Natal e ao Ano Novo. O isolamento social impede as festas! Vivemos diante do inesperado. Talvez, a primeira sensação seja de que perdemos o caminho para a fonte que nos reabastece. Depois, aos poucos, bem lentamente, vamos compreendendo que há algo escondido nesses acontecimentos, que nos chama a novas descobertas, a novos aprendizados, a novas formas de ser e viver. Há um vazio que precisa ser preenchido! E se deixarmos, será! Estamos diante de uma bela oportunidade de re-significar “os encontros” e o verdadeiro sentido desse tempo.

 Vale lembrar que há mais de dois milênios, os moradores de Belém negaram hospedagem a um casal de migrantes, pobres, peregrinos, possivelmente sujos pela poeira da estrada. Ela, grávida, prestes a dar a luz, encontra um único lugar para descansar e acolher a chegada de sua criança: um estábulo! No meio das pessoas, não houve lugar para o Menino nascer. Foi no meio dos animais que o Pequenino veio ao mundo... Na periferia! Na periferia de Belém, Maria e José receberam o Menino Jesus. Os primeiros a encontrá-los foram os pastores... Justamente os pastores, povo excluído da época. Assim, Maria, José, o Menino Jesus, os pastores e os animais nos trazem, nessa cena, o recado que Deus quis (e quer) nos dar. Compreendemos?                                                                                                                                                                                                        

Contemplar essa cena nos permite algumas reflexões. Jesus nasceu “migrante”, como tantos para os quais a nossa sociedade olha com discriminação. Jesus nasceu na periferia, em meio aos excluídos... E onde nós O procuramos? A estrela-guia aponta o caminho, mas estamos com os olhos fixos nas telas dos smartphones, incapazes de olhar para o Alto (ou para os lados)... Assim temos vivido por anos e anos. Focados em nós mesmos, passando superficialmente pelos fatos e pelas pessoas que nos cercam. O ano de 2020, com tudo o que nos obrigou a viver, lança-nos perguntas avassaladoras: o que temos feito de nossas vidas?  O que temos feito de nossas relações? O que temos feito de cada novo dia em que despertamos e nos damos conta de que estamos vivos?

Diante da cena da manjedoura e desses questionamentos, vamos fixar nossos olhos no Menino Jesus? Tão frágil... Tão criança... Deus que chega até nós no meio das palhas de um estábulo. Simples, humilde, sem nada em seu entorno e, em outra perspectiva, com tudo o que é necessário: o amor!

Sim, é tempo de Natal! Um Natal que nos convida a reconhecer o presente como um tesouro precioso! Não aquele comprado, mas o que recebemos gratuitamente, depois do ontem e antes do amanhã. A experiência do hoje é o que precisamos degustar. Com a saudade dos abraços apertados e dos encontros com a família, somos chamados a cultivar o intangível! Somos convidados a ser “amigos declarados”, a estar presentes na vida de quem amamos, mesmo com as mãos vazias e de forma virtual. Somos chamados a despertar sorrisos, mesmo que não os vejamos por causa das máscaras, a encontrar olhares e mergulhar no mais profundo de cada alma. Na experiência do hoje, somos chamados a nos conectar com as famílias que estão com pessoas nos hospitais, nas ruas ou em suas casas, com as mesas vazias. Somos “empurrados” a nos reconhecer vulneráveis, pequenos , frágeis e compreender que quando tudo nos falta, há somente uma força: o AMOR!

 Que o Menino Jesus, junto com Maria e José, nos inspire a resgatar a essência das coisas que são realmente importantes! Que tudo o que estamos vivendo ao longo desse ano nos movimente a ser pessoas melhores! Que, na noite de Natal, estando fisicamente juntos ou separados das pessoas que amamos, lembremos que o AMOR transcende qualquer barreira e, assim, sintamos nossos corações se abraçarem, formando uma corrente sem começo nem fim. Que sejamos gratos por nossa vida e pela vida dos que amamos! Que sejamos gratos, inclusive, pelo inesperado que chegou a nós, com certeza, trazendo aprendizados! Que alimentemos a esperança e fortaleçamos nossa coragem para lutar pelo que acreditamos! Acima de tudo, que nunca, sob nenhuma hipótese, deixemos passar a oportunidade de amar e de cuidar de quem Deus colocou em nosso caminho!

 Que o Natal seja de paz e que sejamos manjedouras de esperança e de amor ao longo dos dias de 2021!

                                                    Renata Villela  

sábado, 21 de novembro de 2020

Cristo Rei




Jesus é nosso rei,
rei dos excluídos, dos marginalizados,
rei dos oprimidos, dos hospitalizados,
rei dos que não têm para onde ir.

Jesus é nosso rei,
rei dos trabalhadores e dos desempregados,
dos migrantes e dos desabrigados,
rei de quem esqueceu como sorrir.

Jesus é nosso rei,
rei dos idosos, dos jovens e das crianças,
dos que, mesmo no escuro, cultivam a esperança,
rei de quem chora, mas teima em cantar.

Jesus é nosso rei,
rei dos esquecidos e dos desanimados,
dos heróis sem capa e dos refugiados,
rei dos que persistem em lutar.

Jesus é rei de todos, sem distinção,
para além de qualquer fronteira,
rei que desmonta barreiras,
sem armas, sem munição.

Jesus é rei da solidariedade,
do respeito às diferenças,
da igualdade de direitos,
rei da vida, 
constituída na diversidade.

Jesus é nosso rei,
pequeninos que somos,
frágeis e vulneráveis que somos,
é NELE que pomos
as sementes da esperança
de que a noite vai amanhecer.
É NELE que descansamos
para ver novo dia nascer.
Renovados, é NELE que pomos
a confiança de que tudo será melhor.
Sim, será ! 
Pois Jesus é o rei que tece a vida
com sua harmonia
e instiga nosso ânimo para que nossa cantoria
termine sempre em tom maior.

                                        Renata Villela

domingo, 10 de maio de 2020

Conversando com Maria



Maria, Minha Mãe, Mãe de todas as mães,

antes de mais nada, quero dizer que vou substituir o “senhora” por você... Estamos tão carentes de intimidade..... Quem lhe escreve é o nosso coração!

O que mais desejamos – e precisamos – é sentir sua presença maternal para nos explicar – com carinho – o que não estamos conseguindo entender...  E para nos consolar em nossos medos e apreensões. Você é nossa maior referência de presença serena e, ao mesmo tempo, firme! Acolhendo a dor, sem fingir que ela não existe, você cultiva a FORTALEZA que brota – feito flor no meio de ervas daninhas – nos corações dos que creem e confiam no Deus que não abandona!

Sua fé nos encanta, Maria, e queremos ser contagiadas por ela! Queremos aprender e reaprender diariamente a ENTREGAR – sem segurar em nenhuma pontinha – nossas vidas e as de nossos filhos nas mãos do Pai. Seguindo seu exemplo, queremos dizer: “sim, que seja feita a vontade do meu Deus”, reconhecendo-nos pequenas e vulneráveis, mas infinitamente amadas e cuidadas por Ele.

Nesse dia das mães, não dá pra desejar que seja FELIZ, assim com todas as letras maiúsculas, mas desejemos que seja pleno de novos significados e aprendizados...

Abraço de mãe sempre teve sabor de porto seguro para os filhos...Abraço de filho sempre teve sabor de gratidão para as mães... Sorriso de mãe sempre significou “vai dar certo” para os filhos...Sorriso de filho sempre significou “tudo vale a pena” para as mães... Hoje, precisamos aprender a viver sem os abraços e com sorrisos virtuais... Não tem sido fácil! Por isso, Mãe, entregamos em seu coração, as nossas inquietações. Sabemos que você pode nos ajudar a transformá-las em movimento!

Entregamos também nossa tristeza e empatia por tantos filhos obrigados a se despedir precocemente de suas mães e por tantas mães que ruminam o corte precoce na convivência com seus filhos...  Entregamos ao seu Sagrado Coração, todas essas pessoas para que, através de seu amor, de alguma forma, a esperança e a alegria possam retornar a esses corações.

Mãe amada de todos nós, ensina-nos a ser discípulos e missionários nesse tempo tão inusitado. Mostra-nos o real significado da palavra ENCONTRO, alimenta nossa esperança e acolhe-nos como crianças assustadas, surpreendidas num jogo que nunca aprenderam a jogar.

Mãe amada de todas nós, intercede junto a seu Filho, por nossa paz e coragem, por nossa consciência e serenidade. Impulsiona-nos, Mãe, com a força da sua fé, a sermos protagonistas na construção de um mundo novo, de um tempo novo...  Se cairmos, ajuda-nos a levantar, a persistir acreditando que somos responsáveis por desenhar o caminho a caminhar! Se nos cansarmos, ajuda-nos a recuperar a energia, a continuar trabalhando para que todos os filhos assumam o papel de semeadores do bem. Se chorarmos, relembra-nos a alegria do amor que tudo supera e anima-nos a distribuir sorrisos para ensolarar a vida!

“Mãe, cuida de nós,
Ouve nossa voz
E ilumina nossos corações
Com sua luz”