quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Sobre fazer aniversário, ter amigos e sorrir



Ontem foi meu aniversário... Eu havia comentado com as pessoas mais próximas que iria, logo cedinho, dar um mergulho na praia. Também combinei com minha filha, meu genro e meu pai de almoçarmos juntos num determinado restaurante. Nenhuma das duas coisas deu certo.
Ainda era madrugada quando ouvi o barulho da chuva forte no telhado... Teve até trovoada ! E eu pensei, isso é que é uma pessoa abençoada! Como poderia reclamar da chuva e dos trovões se, durante todos os dias do verão, eu reclamo do calor? O fato de não ter dado o mergulho na praia foi só um detalhe... Viva o dia fresquinho que Deus me deu!
Mais tarde, chegando no restaurante combinado, descobrimos que ele estava fechado... Sem luz! Provavelmente, um transformador deve ter estourado com o temporal, pois os sinais de trânsito também estavam apagados. Fazer o quê? Almoçar em outro restaurante! Assim fizemos e eu continuei agradecendo a Deus, dessa vez pela família amada que é meu presente maior. Teremos outras oportunidades de ir àquele primeiro restaurante.
Não sou de fazer festa de aniversário... Nesse ano, o dia não caiu no carnaval nem num final de semana, quando normalmente saímos para passear... Resolvi, então, reunir a família e alguns amigos para lanchar.Nada muito programado, as pessoas que ligaram, se “achegaram”. Tudo simples. Simples como eu sou.
Para completar a mágica do dia, por maiores que sejam as críticas às redes sociais (e eu também tenho minhas restrições), não dá pra negar o quanto elas aproximam pessoas que, na inexistência delas, estariam distantes. Foi gostoso demais receber o carinho “virtual” – e tão verdadeiro – de tantas pessoas queridas! Pessoas de diferentes lugares, que encontrei em etapas diferentes da minha vida, mas cada uma com um lugar especial no meu coração.
De noitinha, enquanto lanchávamos, as pessoas brincaram por eu ter colocado velinhas no bolo, declaração explícita dos meus 52 anos de vida. Até brinquei durante o dia, dizendo que as colocaria invertidas, 25... Mas não é que essa brincadeira se tornou um ponto de reflexão para mim? Com toda certeza do mundo, apesar das restrições físicas crescentes, não troco meus 52 pelos 25, de jeito nenhum. Até porque, só pra começar, se tivesse 25, teria ficado p. da vida por não ter dado o mergulho na praia e não ter ido ao restaurante planejado... A maturidade ensina que essas coisas são pequenas e não valem o nosso mau humor. Não troco meus 52, não! Tudo o que aprendi foi valioso demais. Cada cicatriz tem sua história... E não são poucas as cicatrizes, mas eu escolhi não remoer o que me fez mal, mas celebrar o que tenho aprendido e os amigos que a vida tem me presenteado! É tão melhor assim! Eu escolhi não mais querer agradar ninguém, mas ser quem eu sou, com erros e acertos, sendo coerente (na medida da minha humanidade) com o que penso e acredito, mesmo que desagrade alguém.Por outro lado, aprendi também que mudar de ideia não é vergonha, é sabedoria! Assim, fiz amizades muito mais verdadeiras! Não, não troco meus 52 anos de estrada! Mesmo que doa a coluna, o joelho, o pé... Mesmo que doa a saudade de quem não está perto, seja por que motivo for. Só sente dor quem caminha! Mais ainda, só sente determinadas dores, quem ama. O fato é que, doa o quanto doer, só o amor faz a vida ter sentido...Pelo menos, a minha! E não é frase feita, não.
Durante o dia, recebi muitas palavras de carinho... “Ao vivo”, por telefone, pelo face, pelo zap.... Diferentes formas, diferentes sotaques, mas sempre com uma verdade tão "gostosa". Na verdade de cada uma dessas palavras de carinho que recebi, senti forte em meu coração, as bênçãos de Deus. Bênção derramanadas sobre mim através de cada pessoa que a vida colocou em meu caminho. Sem elas, com certeza, eu seria bem diferente do que sou. 
Pelas felicitações que recebi, me toquei de que o sorriso é minha marca registrada.Que bom! Não tenho como negar que ele nasce da alma. Uma alma que, apesar de todos os ventos contrários, de todo cenário adverso, ainda acredita na vida e no amor entre as pessoas. Meu sorriso é o farol dessa alma inquieta que ama, mesmo sabendo que “amar dói”. Meu sorriso é resposta desse ser peregrino que se enxerga eternamente aprendiz e, a cada dia, descobre e redescobre que a missão abraçada se renova a todo instante. Meu sorriso é a expressão mais genuina da alegria que vem de Deus e que brota em cada encontro, renova-se a cada abraço ou palavra de carinho e se eterniza em certezas que palavras não descrevem. Meu sorriso - definitivamente - não é um sorriso facebookiano, a espelhar a alegria que todo mundo quer ver... E ter! Confesso que, às vezes, ele até faz parte da pose, mas o que vem de dentro sempre escapole e grita mais alto. Não faço parte - graças a Deus - da turma que vê o mundo cor-de-rosa, mas também, não o vejo em tons escuros e amendrontadores. Acho que, acima de tudo, meu sorriso é de esperança, de fé. Nasce do amor que me alimenta. 
De noite, custei a dormir, pensando numa forma de agradecer a todas essas pessoas, pelo bem que me fizeram durante esse dia e, muito mais que isso, pelo bem que me fazem a cada dia. Por elas, rezei, pedindo as bênçãos de Deus. Éra o que de mais precioso tinha a fazer! Assim fiz. Em seguida, acolhi os desejos de cada um em meu coração e, sorrindo pela alegria do amor, adormeci.



domingo, 29 de janeiro de 2017

“Maria, ensina teu povo a compadecer-se!”


Fui “chamada” (porque foi um chamado de Deus) para falar sobre esse tema... Por uns dias fiquei pensando, rezando e refletindo sobre a palavra “compadecer-se” e até pensei em focar minha meditação na etimologia e significado dessa palavra tão forte. Compadecer é ter compaixão. Com + paixão =  com o amor que dá a vida - como a paixão de Cristo, que abraçou a cruz por nós. Esse chamado foi para fazer uma meditação fazia parte da novena de Nossa Senhora da Luz. Cada dia da novena teve como tema “Maria, ensina Teu povo a....”. O segundo dia era justamente o que pedia a graça de “compadecer-se”.  

Maior do que a responsabilidade que me havia sido confiada, o que eu sentia era uma tranquilidade que eu nem sabia explicar. A sensação é de que iria falar sobre alguém tão íntimo, que não precisava estudar nem me programar... Só sentir, só rezar...E foi assim que,somente  mais ou menos três dias antes do dia que iria falar sobre esse tema,  parei para ler a passagem bíblica do dia (Lc 1, 39-45): a visitação de Maria à sua prima Isabel. Incrível que não sei quantas vezes já li essa passagem (que, por sinal, é uma das que mais gosto da vida de Maria). Dessa vez, contudo, foi diferente: mergulhada na oração, a partir da leitura, fui escutando o que precisaria falar para as pessoas. As ideias surgiram tão claras que – pela primeira vez na minha vida – não escrevi antes de falar. Meu coração registrou tudo dentro de uma lógica tão perfeita que, qualquer coisa que eu viesse a escrever, correria o risco de perder o fio da meada. Foi assim que deixei o coração falar, sem programar nada.

Agora, dias depois, atendendo ao pedido de amigos, vou tentar escrever o que disse no dia:

Maria visita sua prima Isabel.

1.     Fico pensando nas grávidas de hoje que só comunicam a gravidez a partir do 3º mês, devido ao risco de a gravidez não se consolidar. Imagina se Maria, em algum momento, tivesse se preocupado com esse risco? Jamais encararia a caminhada árdua até a casa de Isabel. Aliás, antes de falar da visita propriamente dita, é impossível não falar do momento que Maria estava vivendo. Há pouco tempo tinha recebido a visita do anjo Gabriel, anunciando-lhe que seria a Mãe do Messias tão esperado. Uma menina... Quanta coisa deve ter se passado na cabeça dessa menina, surpreendida pela visita do anjo, com a notícia que transformaria toda sua vida! Como se isso fosse pouco, tinha sua relação com José, o casamento, a mudança de planos, o pacto de confiança... E o risco social, o apedrejamento, o preconceito, o risco da marginalização... Problemas sérios, situação grave, sobretudo considerando que era uma menina... Acontece que era uma menina plena de Deus, “gestada” de um Deus que lhe preenchia por inteiro. 
Quando estamos assim, mergulhados no amor de Deus, colocamos nossos problemas no devido lugar. Não esquecemos deles, não esquecemos de nossas dores nem de nosso sofrimento, mas conseguimos colocá-los num cantinho (sob a guarda do Amor de Deus) e, assim, somos capazes de olhar para o outro, sentir o sofrimento do outro, viver a experiência da dor do outro e ir ao seu encontro. Foi isso que Maria fez: guardou em seu coração o que era seu e foi ao encontro de Isabel.

     2.    Maria sobe as montanhas de Judá. 
     Quando falamos em montanhas, podemos pensar nelas sob duas perspectivas. A primeira, lembrando que subir a montanha – na bíblia – é viver a experiência do Sagrado. Foi no alto da montanha que Moisés recebeu as tábuas da Lei, foi no alto da montanha que Pedro, Tiago e João viram Jesus transfigurado... Foi preciso subrir as montanhas para que Maria encontrasse Isabel, ou seja, no encontro com o outro,vivemos a experiência do Sagrado.

A outra perspectiva de “montanhas” é aquela que nós, seres humanos, sentimos diante delas: a expectativa de grande dificuldade, dos obstáculos a transpor. E aí, fico pensando em quantas montanhas nós temos colocado entre nós e os outros.  Quantos obstáculos criamos ou supervalorizamos para não ir aonde o povo está, para não fazer o que Jesus espera de nós, para nos mantermos acomodados em nossos mundinhos.

3.    Maria vai à casa de Isabel, não traz Isabel para sua casa. Assim, ela vai viver a experiência de Isabel, no mundo de Isabel. Não pressupõe nada, vai lá. Vê com seus próprios olhos o que Isabel está precisando e a atende em suas necessidades. Não faz o que acha certo, não dá o que imagina que ela esteja precisando. Vai ao mundo de Isabel, sente suas dores, compartilha as dificuldades de Isabel e a serve no que ela necessita. Esse é o grande aprendizado que Maria nos dá: para servir é preciso ir à casa do outro e viver com ele, a sua experiência. Compadecer-se e depois doar o que o outro precisa. Quantas vezes nós fazemos exatamente o inverso? Queremos trazer o outro para nossas verdades, fazer o que julgamos correto. Enchemos-nos de julgamentos e ideias pré-concebidas e achamos que estamos “amando como Jesus amou” . Fazendo o bem. Aliás, a própria expressão “vamos fazer o bem” já pressupõe uma certa superioridade de nossa parte. Como se o bem estivesse em nossas mãos... Raramente “viajamos” ao universo do outro para compreendê-lo em sua essência. Partimos do pressuposto de que quem está na rua precisa de trabalho, não de comida; que os presos “merecem” tudo o que passam nas prisões superlotadas; que os idosos precisam entrar em nossa realidade, em nosso ritmo; que não devemos dar nada às crianças que pedem qualquer coisa na frente dos supermercados. Muitas vezes, ainda, queremos que o outro faça o que nós fizemos, porque deu certo pra gente, como se fosse uma solução pré-moldada, ignorando que o outro é diferente de nós. É difícil pararmos diante de cada um em suas realidades únicas, para conhecer seu histórico de vida, o contexto em que vivem, enfim, suas vidas. As nossas verdades sempre prevalecem diante da real necesssidade do outro. Maria podia ter pensado como nós: o que Isabel, com toda essa idade, foi inventar de engravidar? Não sabia que não iria dar conta? Não imaginou que fosse acabar dando trabalho aos outros? Não, nada disso. Maria foi ao mundo de Isabel, experimentou tudo o que Isabel estava sentindo, compadeceu-se = sentiu as suas dores e fez o que Isabel precisava que fosse feito!

Maria, Mãe Querida, ensina-nos a nos compadecer de todos os que sofrem à nossa volta. Os doentes, os presos, os idosos, as crianças... Ensina-nos a compadecer dos que estão nas ruas, nas periferias e também dos que estão no apartamento do lado do nosso ou em nossas próprias casas.
Ajuda-nos a vencer montanhas e sair de nossas casas, de nossos mundos, a olhar além de nossos próprios umbigos, confiando nossos problemas ao Deus que cuida de tudo e tendo olhos para olhar os outros. Inspira-nos a escutar a voz de Deus e a nos preencher por Seu amor, para doá-lo a quem necessita. Sem julgamentos, sem verdades pré-concebidas... Só com amor. Muito amor. Lembrando que amor é compartamento, é atitude, não é sentimento. O amor que Jesus nos ensina vai além do gostar. Quando o ponto de partida é ELE, somos capazes de amar, mesmo quando não gostamos....

Temos tanto a aprender, Maria! Ensina Teu povo a compadecer-se!


Tentei repetir aqui, como foi no dia que fiz essa meditação, as palavras que brotaram em meu coração. Com certeza, não está exatamente igual, mas acho que consegui colocar aqui a base do que falei. Foi o fruto de um momento de profunda oração, de encontro com essa Mãe que tanto amo.

Que Ela os inspire como tem me inspirado. E que, seguindo seu exemplo, saiamos de nossas casas, encaremos as montanhas e abracemos o Sagrado que vive em cada coração que chora, que sofre e espera.

Renata Villela  -  Janeiro/2017





segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Mensagem de Natal - Inquiete-nos, Jesus !



Dezembro acabava de abrir as portas quando  fui “escolhida” para buscar um bebê recém-nascido na maternidade... A mãe tinha 17 anos, residente em um abrigo que acolhe crianças e adolescentes vítimas de violência. Confesso que me senti como os magos: animada para ir ao encontro do Menino Jesus. Chegando ao hospital, infelizmente, a criança não havia sido liberada, por estar desnutrida. Foi aí que comecei a imaginar o Jesus dos nossos dias: desnutrido, nascido na periferia... Maria, com 17 anos, residente em um abrigo, vítima de violência... A manjedoura: um hospital público, com todo tipo de carência que se possa imaginar... Naquele momento, para mim, o Natal saiu do campo da contemplação e passou a correr nas minhas veias, como experiência viva. A constatação? Jesus foi mesmo um menino pobre, de uma família de periferia, que nasceu no meio dos animais, porque ninguém quis acolher o casal peregrino. Jesus nasce hoje, escondido em um canto qualquer da cidade. Nós, por outro lado, muitas e muitas vezes, não conseguimos enxergar a estrela para ir a Seu encontro, porque todos os holofotes de nossa sociedade estão virados para outros lugares.
                                                                                                               
O que ficou em meu coração? Uma enorme inquietação! E, assim, nasceu a inspiração para essa mensagem de Natal e o desejo de abrir uma brecha de inquietação no coração de cada um. Quando abrimos brechas para pensar em tudo o que José e Maria passaram para chegar até ali ou quando transportamos a história do nascimento para nossos dias, somos chamados a mergulhar mais fundo em nossa percepção da realidade e, consequentemente, reavaliar nosso papel no mundo...




É tempo de Natal! O pedido que faço ao Menino Jesus é um só: inquiete-nos ! Não nos deixe cair na tentação de olhar somente para o nosso umbigo, de querer criar nossos filhos, netos, sobrinhos  sob redomas, de nos acomodar ao sofá de nossas salas... Nem nos deixe ficar estagnados, chorando o lamento do que está ruim.

Inquiete-nos, Menino Jesus, com a simplicidade de Sua família e de suas atitudes. Inspire-nos a reconhecer o que é essencial e a desapegar de todas as coisas supérfluas que vamos colando em nossas vidas, ao longo de nossa história...

Inquiete-nos, fazendo-nos mudar nossa forma de ver as coisas. Que demos valor ao que tem valor de verdade. Em vez de supervalorizar o wifi ou a melhor conexão de internet, que enxerguemos o valor de um olhar terno, de um abraço caloroso e de um sorriso verdadeiro.

Inquiete-nos, Menino Jesus, com a espontaneidade de Sua presença entre os doutores da lei e com Sua disponibilidade para servir sem questionar. Ensina-nos a viver desse mesmo jeito.

Meu Deus Criança, Pequenino, inquiete-nos com Sua proposta de misericórdia, que traz o exercício do perdão. Inquiete-nos com Seu testemunho, que nos ensina a transpor todas as diferenças, respeitando-as. Faz com que paremos de olhar para o que nos separa e coloquemos o foco de nossas ações em tudo o que trouxer o gene da integração. Que consigamos nos enxergar como irmãos, independente do lugar onde nascemos, da religião que escolhemos, das verdades que acreditamos ou de qualquer outra diferença que possa nos afastar.

Nasce em nós, Menino Amado, desmonta nossas paredes, desanda as nossas fórmulas e derruba preconceitos e medos. Devolve a todos nós, o desejo de AMAR. Que aprendamos a amar como Você amou, assumindo todas as consequências, sejam elas quais forem. Inquiete-nos, Jesus, e encoraje-nos a mostrar a nossa cara, expressando e testemunhando – com nossas atitudes diárias - o que acreditamos. Inquiete-nos a assumir o Seu projeto, abraçando os pequeninos e exercitando a humildade, a gratuidade e o perdão.

Inquiete-nos, enfim, a transformar todos os meses em dezembro, todos os dias em natal e, acima de tudo, a enxergar Sua face em todas as pessoas de todos os lugares. Que, assim, celebremos cada minuto da vida como um milagre que não se repete.

Que não deixemos para “algum dia”, o bem que podemos fazer a nós mesmos, aos próximos mais próximos e a todos os esquecidos nas “manjedouras” de nosso tempo. Que nossa comunhão seja a nossa força e que, inspirados em Seu Amor, assumamos nossa responsabilidade de mudar esse mundo que está aí.

O lugar é aqui e o tempo é agora!

Amém!
                                                                                                         
                                                                                             

                                                                                                                      Renata Villela – Dezembro/2016

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Inquieta e inconformada



De uns tempos para cá é assim que tenho me sentido: inquieta e inconformada.  É como se o meu canal pessoal não estivesse sintonizado com o canal do mundo, das verdades tidas como absolutas, das regras do jogo.  O interessante é que quanto maior é meu incômodo, maior é a certeza de minha vocação... Quem foi que disse que responder ao chamado de Deus para nossas vidas significa encontrar a paz? Pelo contrário! O único recanto onde encontro paz é no coração dEle... No mais, o que pulsa em mim é a inquietação por tantas injustiças, tantos medos impostos aos mais fracos, tanta liberdade cerceada, tanta verdade camuflada para atender ao interesse de alguns, tanta gente triste, desanimada, frustrada...

Já dizia Santa Teresa de Ávila, “tudo passa”... Eu, em meus momentos de solidão, fico me questionando e buscando o discernimento – em oração – sobre o que devo confiar e deixar passar - sob a ciranda do tempo e da consolação - e o que me é dada a responsabilidade de intervir. Tantas vezes a angústia bate à minha porta, porque sou pequena e falível e, por ser assim, muitas vezes não consigo identificar o momento de me posicionar, tomar atitudes, como fez São Francisco;  ou de calar e guardar tudo em meu coração, como viveu Maria, a mãe de Jesus e Nossa Mãe. Longe, muito longe,  de ser como eles dois, esbarro-me  em minhas vaidades e certezas. Tropeço. Levanto. Sigo. Peço a Deus que não me deixe sair do compasso, que eu dance a música que Ele sussurra em meus ouvidos.

Por todas as turbulências do dia a dia, a oração é meu combustível, a Fonte de onde me nutro para não perder o rumo, para buscar viver da forma como Ele espera que eu viva e não do jeito que eu acho que é melhor. São muitos,os apelos do mundo. São muitas informações desencontradas. São muitos anseios e muitas perspectivas diferentes de enxergar a realidade. Somos todos, no mundo de hoje, facilmente influenciáveis. Precisamos ter muito cuidado para não nos deixar levar pela turba... Ou pelas turbas... Daí a sensação de estar em eterna vigília, atenta e desconfiada. Isso inquieta e angustia. Às vezes, traz cansaço também.

Mais acima falei que “quanto maior minha angústia, maior a certeza de minha vocação”, porque é assim que eu sinto... Vem governo de esquerda, vem governo de direita, vem gestão permissiva, vem gestão neoliberal, vem crise, vem pressão, vem maremotos e calmarias, vem metas crueis e luzes apagadas e, no meio de tudo o que vem, uma coisa se enraiza mais profundamente a cada dia: a certeza de minha missão. Tenho certeza de que estou aqui para cuidar das pessoas, para contribuir – através dos dons que Deus me deu – para que o ser humano ocupe seu lugar de protagonista na vida, sujeitos de suas histórias. Quando vejo o desejo humano esmagado pelo rolo compressor das coisas do mundo, meu coração pulsa inquieto. Quando vejo o cuidado com as pessoas ser colocado de escanteio e todas as atenções ficarem voltadas para os cifrões, meu coração engasga, soluça, chora... Ainda que pareça paradoxal, contudo, é  da tristeza que nasce a força que toma conta de mim, trazendo a coragem de lutar, de não me deixar abater. Meu vazio é ocupado pela única “substância” capaz de preenchê-lo:o Amor que me faz amar. Correr riscos, me expor, me indispor, mas amar, amar e amar. Amar com atitides, ações e palavras, mas também com silêncios e oração.

É assim que tenho vivido esses tempos. Assim, acordo todas as manhãs driblando o incômodo  que me desenergiza e transformando-o em inconformismo. Inconformismo movimenta, não abate. Inconformada, peço a Deus que seja a minha força e a minha luz. Quando Ele me abraça na oração, ao mesmo tempo que me consola e acalma,incendeia minha inquietação. Seu Amor provoca em mim, um movimento diferente, que me faz mergulhar e voar. Mergulhada nesse Amor, peço discernimento para não cair nas tentações e nas ciladas da vida. De asas abertas, peço coragem e força para vencer os ventos contrários e chegar aonde for preciso.

Inquieta, inconformada, consolada e impulsionada pelo Amor que dá sentido à minha vida, eu vou... Vou tecendo minha vida.


sábado, 1 de outubro de 2016

Misterio da Fe

  





Vida, morte,
corte que sangra,
mantra que se repete,
parto,parte,
nasce, renasce,
morre, corre,
pulsa,
cursa o rio,
frio e calor.
Amor.
Guerra.
Água e terra,
fogo e ar,
natureza.
Beleza.
Experiência humana,
Deus que se derrama
no inexplicável.

Fé, luz, chuva que cai
no sertão;
sol que ilumina
a escuridão,
união, separação,
renovação.
Noite e dia,
tristeza e alegria,
esperança,
riso que desperta
criança,
pêndulo que balança.
Vida,morte,
corpo, alma,
fim, começo,
mistério.
Lágrima.

Gota de chuva
que pinga do céu,
semente que brota
e rompe o véu
da casca que esconde
o brilho do além.
Mergulhar,
voar,
caminhar,
pousar em algum lugar,
morrer um pouco a cada dia,
viver.

Descanso,
remanso,
e, no contra-ponto,
a ânsia do amanhã.
Manhãs.
Segue a história,
fica a saudade,
memórias e sonhos,
planos, medos,
frustração,
crenças,
laços que tecerão
verdades novas.... Ou antigas...
Cantigas de roda,
prosa e poesia,
alegria sem fim,
convicção além da razão,
inspiração.

A novidade, um dia,
será plena, sim,
e a alma, mesmo pequena,
perceberá
que presenças não passam
nem passarão.

Mistério da fé.

Vida e mistério

    





Vida, morte,
corte que sangra,
mantra que se repete,
parto,parte,
nasce, renasce,
morre, corre,
pulsa,
cursa o rio,
frio e calor.
Amor.
Guerra.
Água e terra,
fogo e ar,
natureza.
Beleza.
Experiência humana,
Deus que se derrama
no inexplicável.

Fé, luz, chuva que cai
no sertão;
sol que ilumina
a escuridão,
união, separação,
renovação.
Noite e dia,
tristeza e alegria,
esperança,
riso que desperta
criança,
pêndulo que balança.
Vida,morte,
corpo, alma,
fim, começo,
mistério.
Lágrima.

Gota de chuva
que pinga do céu,
semente que brota
e rompe o véu
da casca que esconde
o brilho do além.
Mergulhar,
voar,
caminhar,
pousar em algum lugar,
morrer um pouco a cada dia,
viver.

Descanso,
remanso,
e, no contra-ponto,
a ânsia do amanhã.
Manhãs.
Segue a história,
fica a saudade,
memórias e sonhos,
planos, medos,
frustração,
crenças,
laços que tecerão
verdades novas.... Ou antigas...
Cantigas de roda,
prosa e poesia,
alegria sem fim,
convicção além da razão,
inspiração.

A novidade, um dia,
será plena, sim,
e a alma, mesmo pequena,
perceberá
que presenças não passam
nem passarão.

Mistério da fé.

domingo, 18 de setembro de 2016

Sobre a morte de Domingos Montagner



Deixei passar uns dias, a emoção acalmar, a tristeza desafogar o peito e o susto dar lugar à serenidade, para escrever sobre o fato que abalou grande parte dos brasileiros nesses últimos dias: a morte do ator Domingos Montagner.

As primeiras notícias pareciam fake... Nossos corações teimavam em não acreditar! Aos poucos, a incredulidade foi dando lugar à indignação e a nós, coube apenas aceitar o inusitado.

Por que ficamos tão tristes? Ficamos tristes diante da morte que rouba sonhos e planos. Ficamos tristes diante da partida prematura de um grande artista e uma bela pessoa.

É conhecida a afirmação de que “a única certeza da vida é a morte”, mesmo assim, nunca estamos preparados para ela. Sobretudo quando a vida parece pulsar em seu auge, quando saúde, felicidade e sucesso parecem estar de mãos dadas e, repentinamente, uma outra verdade rompe bruscamente o grande espetáculo da existência. Não tem jeito, a morte ignora planejamentos. Somos vulneráveis, frágeis, pequenos demais diante dos mistérios que nos envolvem !

Além disso, não foi a morte de uma pessoa qualquer, foi a morte de um palhaço! Em nossa percepção limitada, palhaços não combinam com lágrimas. Não foi a morte de uma pessoa qualquer, foi a morte de um artista e artistas de verdade sintonizam com o que temos de mais essencial. Não foi a morte de uma pessoa qualquer, foi a morte de um ser humano que honrava valores tão desprezados em nosso tempo.

Morreu um cara diferente, esse é o discurso que se repete a cada pronunciamento. Morreu o “santo” de “sete vidas” que fez tantos se reconhecerem nas dúvidas e na paixão, nos sonhos e nos medos, na coragem, na verdade e na humanidade de seus personagens. Morreu o que, em “Velho Chico”, encarnou a fibra do nordestino que não desiste nunca.

Muitos falaram que o Domingos era um “ser de luz”...Fiquei imaginando a luz que mergulha nas águas do rio. Veio em meu coração, a imagem de um batismo: águas de purificação e renovação. Encontro de luz e água. Fim e começo. Vida, morte, vida.

Foi uma despedida. Sim, uma despedida... Não do jeito que ele ou a Camila imaginaram. Não do jeito que ninguém seria capaz de supor. As gargalhadas despertadas pelo palhaço molharam-se e calaram-se. O São Francisco – tão desprezado, maltratado e esquecido – abraçou o porta-voz de seus ribeirinhos. Um rito de passagem e, como disseram os indígenas, ele não morreu, apenas ganhou mais luz, mais força.

Não foi um evento místico nem uma manifestação holística como alguns disseram. Foi uma fatalidade. De certa forma, foi também consequência da irresponsabilidade dos que não sinalizaram devidamente o local.  Poderia ter sido diferente? Talvez sim, talvez não. Na vida real, “e se” não tem efeito algum. Triste. Surpreendente. Não estava no script. Não foi uma cena. Não foi gravação. Não fazia parte de roteiro algum.
Foi a morte de um artista. Morreu um homem de bem.  Quando artistas morrem levam um pouco de nós, porque são vozes de nossas almas. Quando homens de bem morrem deixam um tanto de si em nossos corações, reforçando nossa esperança  e nosso desejo de fazer diferença nesse mundo tão louco.

O que fica é um imenso silêncio. Silêncio de tristeza, sim, mas, sobretudo de reverência! Obrigada, Domingos Montagner, por sua arte e por sua verdade! Obrigada por sua sensibilidade e por sua alegria! Obrigada por sua luz, por seus valores, por ter compreendido e transmitido com tanta propriedade, as dores e os sonhos dos nordestinos.

 Obrigada por sua vida!

Desejo que seus filhos passem – com amor – por essa turbulência! Que vivam  – em comunhão com tantos que vocês cativou – e possam, daqui a um tempo, celebrar sua vida. Desejo que guardem em seus corações, a honra de serem filhos de uma pessoa que deixa marcas de dignidade num país atolado em corrupção e marcas de sensibilidade num tempo de indiferença  e  desesperança.

Benditos os que mergulham e não voltam, mas ficam no lugar mais sagrado de todas as pessoas: em seus corações. Bendita, a sua vida ! Bendito, o seu legado.