quarta-feira, 16 de novembro de 2022

Bem-aventurados



É importante derrubar os muros
para libertar,
construir o futuro
conjugando o verbo amar.
É importante semear sorrisos
para enternecer
corações em perigo
deixando a paz florescer.

Ser bem-aventurado,
filhos tão amados,
vivendo a santidade
em todo e qualquer lugar.
Livres na simplicidade,
únicos na diversidade,
fagulhas que se integram 
pra iluminar.

Santidade é exercício
do dia-a-dia,
experiência da alegria
que não vai embora 
com as tempestades.
Santidade é viver
as bem-aventuranças,
sempre regando a esperança
na confiança do Amor Maior.

quarta-feira, 28 de setembro de 2022

Saudade

 



Saudade...
Saudade é uma dor
que aperta o peito,
mas não é nó,
é laço,
falta do abraço
de quem partiu.
É sentir-se só
depois de encontros...

Saudade é percepção
de que, mesmo sendo inteiros,
somos faltantes
e que uma parte importante
de nós
é composta pelo outro
que nos constitui
e constrói.

Saudade
é o que não se explica
nem se traduz;
é amor que fica
depois que se vai embora;
é experiência de luz
mesmo quando o tempo
escurece;
é lembrança
que nunca se esquece.

Saudade é amor
que teima em existir
na ausência
e transcende distâncias
e silêncios.

sábado, 17 de setembro de 2022

Passarinho

 





Livre, passarinho,
voa, sai do ninho,
enche de coragem o peito,
descobre o jeito mais bonito
de alcançar o infinito.

Voa, passarinho,
livre, abre as asas a plainar,
deixa seu corpo dançar,
sem medo das ventanias.

Faz valer a cantoria,
a liberdade,
a possibilidade
de criar o traçado
do voo que quer voar.

Voa, passarinho, canta
e pousa se preciso for.
Encontra um canto,
descansa na sombra,
pertinho de uma flor.

Livre, passarinho,
fica onde quiser ficar,
no ninho, no ar, em qualquer lugar,
Deixa pulsar seu desejo,
na cantoria de quem dança
e voando parece brincar!

Renata Villela em setembro/2022

quarta-feira, 7 de setembro de 2022

Sobrevivente ferida

 

                           

Hoje, dia 7 de setembro, o Brasil celebra 200 anos de sua independência... Algumas memórias saltam de minha mente como memórias de um dia bonito... Hoje, não consegui sentir outra coisa que não tristeza. Queria sentir esperança, coragem, vontade de lutar por um Brasil melhor... Normalmente, sinto isso em meu coração, não me considero uma pessoa derrotista, mas, hoje, especialmente, o que senti foi tristeza.

 Saí para caminhar e, no caminho de ida, fiquei positivamente surpresa ao ver pessoas de diferentes partidos panfletando na praça, chamando um e outro aqui e ali para falar de seus candidatos. Pensei comigo mesma: isso é democracia! A convivência entre partidos diferentes, cada um respeitando o espaço do outro, um exemplo de civilidade. Segui minha caminhada e parei num lugar onde gosto de tomar um cafezinho com pão de queijo, na calçada, observando o movimento. De repente, a harmonia se quebrou quando um “bando de canarinhos” voltava da praia. Muito bem vestidos, “honrando” a camisa verde e amarela, alguns conversando entre si, outros cortando caminho para não “cruzarem” com opositores e outros entoando gritos de guerra, maldizendo o candidato da oposição. Naquele momento foi que senti meu coração se encher de tristeza.

 Eu queria ter sentido indignação por causa do comportamento deles, até indiferença, mas senti tristeza. Terminei meu café e vim andando de volta pra casa, eu e meus pensamentos. Não consegui afastar a dor da lembrança dos 600.000 mortos na pandemia, entre os quais está meu pai, tio Gerson, D. Nelma, Paulo e tantos outros que não conheci, mas sei que suas famílias comungam a mesma dor que eu. É uma dor que poderia ser só de luto, mas ela traz colada em si, as falas insensíveis e desumanas do atual presidente, pelo qual essas pessoas gritam apaixonadamente, com o coração transbordando de ódio por quem tem outra forma de pensar e governar. Cada camisa amarela, segurando a bandeira do Brasil, me trazia junto a tristeza pela forma com que a nossa bandeira foi tragada por uma ideologia que antagoniza tudo o que o Barsil sempre significou: um país pacífico, alegre, com o meio ambiente rico, enfim...

 Sou a favor da democracia, por isso, respeito as diferentes escolhas, porque entendo que isso seja a essência do estado democrático. O que, infelizmente, não consigo entender é a escolha por uma “pessoa” que dissemina o ódio, a divisão, a violência... Por coerência com a forma com que vejo a vida, com a religião que escolhi, com os valores que pautam minha caminhada, eu JAMAIS votaria nem votarei numa pessoa que fala e prega exatamente o oposto de tudo o que acredito. Eu acredito no bem, no respeito às diferenças, na diversidade humana, na igualdade de direitos de homens, mulheres, homoafetivos, trans e todas as suas denominações. Eu acredito que a ciência, a educação e a cultura são o que tornam um povo capaz de pensar, realizar e ter uma vida digna. Eu acredito que o Planeta Terra é nossa casa e precisa ser cuidado, não destruído. Eu acredito que a população mais pobre de nosso país tem direito a mais do que o mínimo necessário à sobrevivência, tem direito à dignidade. Eu sou contra as armas, sou contra a misogenia, a xenofobia, a violência em todas as suas formas. Sou contra o mau uso do dinheiro público também (motivo pelo qual ele ataca os opositores, ganhando aliados por isso), sobretudo quando esse mau uso é recheado de mentiras e manobras que desviam a atenção das enxurradas de dinheiro que seguem escorrendo para bolsos conhecidos. Nesse caso, entra minha indignação quanto à cegueira coletiva, que teima em não ver o que está acontecendo...

 Não escrevo para convencer ninguém, não escrevo para fazer “campanha” para o candidato que terá meu voto. Até poderia, mas não tenho vontade de fazê-lo... Escrevo só para desabafar a dor que tomou conta de meu coração, viajando em pensamento pelo retrocesso que vivemos ao longo dos últimos anos, pelas tantas mortes e lutos sufocados pelo sarcasmo de quem poderia ter agido diferente. Sinto tristeza por ser artista e ver o mal que tentou sufocar as diversas expressões de arte em nosso país, por ser psicóloga e presenciar o adoecimento coletivo de tantos brasileiros. Nesses dias conversando com minha prima, comentávamos que somos “sobreviventes feridas”. É assim que me sinto.

 Sim, feridas cicatrizam, deixam marcas, mas cicatrizam. Dores passam e, mais do que passam, fortalecem-nos, a partir da nova consciência que criamos acerca de nós mesmos e da vida.  O dia 7 de setembro está anoitecendo... Minha tristeza dormirá e eu acordarei mais forte, mais consciente, fazendo dessa tristeza, inquietação. O dia 7 de setembro está anoitecendo... Permitiremos que nosso país amanheça?

sexta-feira, 29 de julho de 2022

Os dois lados

 


 

  


De um lado, afagos, afetos,

família, amizade.

Do outro, reencontros, descobertas,

surpresas e liberdade.

 

De um lado, a independência,

a busca da essência,

a carência, a solidão abraçada,

a consciência do eu.

Do outro, a liga da convivência,

o apego, a dependência,

os laços criados, os abraços

e os passos dados com medo,

na cidade ao léu.

 

Realidades paralelas

que se encontram em mim,

desfazendo lógicas,

escrevendo crônicas e poesias.

 

Lá vou eu,

refazendo a história,

juntando desejo e memória,

passado e futuro,

nesse presente nâo escolhido,

mas acolhido com medo e coragem.

 

Assim é o vai e vem de cada dia,

às vezes, tristeza, às vezes alegria...

O que me inspira e move

é juntar as pontas, em bordado,

sabendo que, de um lado,

há vida que pulsa

e do outro (acredite!) também.


Renata Villela (julho/2022)

 

domingo, 12 de dezembro de 2021

Mensagem de Natal 2021

 



2021 foi mais um ano marcado por sentimentos difíceis de lidar...Medo, frustração, angústia, saudade, solidão... Dores diferentes tocaram nossos corações... Nesse contexto, fiquei me perguntando sobre o que (e até como) escreveria uma mensagem de alegria e esperança com a chegada do Natal.  Algo que fosse de dentro para fora e que fosse legítimo.

Eu sempre vejo a “virada do ano” como um tempo de renovar as esperanças. É um rito necessário para enterrarmos o que passou e semearmos o que virá, guardando memórias e alimentando sonhos. Acontece que acabamos nos contaminando pelo o acúmulo das más notícias que chegam até nós. Para sair desse redemoinho, precisei abrir meus olhos e ouvidos para ficar mais atenta aos sinais de Deus e encontrar o que eu queria dizer às pessoas.

Como Deus nunca falha, num dia desses, olhando pela janela, vi uma jovem caminhando e dançando pela calçada... Uma  cena contagiante! Em vez de simplesmente caminhar, ela vinha dançando. Pareceu-me que ouvia uma música interior e seu corpo se deixava levar pela melodia. Ela dançava e transmitia uma alegria linda de ver. Em plena manhã de um dia comum de semana, a jovem dançava, livre e plena! Eu, contagiada por aquela alegria, fiquei me perguntando sobre o que teria feito essa jovem dançar e perguntei-me, também, o que me faria sair pelas ruas dançando... Entendi que só um coração consolado (transbordando amor)  é capaz de dançar!

Assim, começo a falar do Natal: uma festa que nos encanta por esse Deus que se faz criança, vulnerável, e escolhe nascer no seio de uma família pobre, migrante...Esse Deus que se faz gente para que sintamos o quanto temos de sagrado em nós. Esse Deus que, em Jesus, nos inquieta com a sucessão de paradigmas que vai quebrando ao longo de sua vida, mostrando que nada é mais importante do que o amor e as ações que brotam dele.... Sim, porque não há AMOR sem ações concretas. Independente de ser uma festa cristã, o Natal é um convite ao Amor, o amor que queremos ver chegar a todas as pessoas, de todos os lugares, etnias, crenças e não crenças. O que mais importa é  dizer SIM a esse Amor que quer nascer em nós!

Depois de ver aquela jovem dançando, senti vontade de transformar essa mensagem nesse convite que transborda todos os meus desejos:

- que sejamos mais tolerantes uns com os outros, respeitando nossas diferenças e crescendo com elas;
- que a dor “do outro” nos inquiete e nos movimente a sair da acomodação e a olhar além de
nossos próprios umbigos;
- que compreendamos a essência de tudo o que Jesus nos disse e desapeguemos de algumas regras, que mais nos afastam do que nos unem a Deus e às pessoas;
- que vivamos a essência de todas as religiões, que é o amor, respeitando (mesmo quando não concordamos) o que nos diferencia; criando pontes e não muros;
- que tenhamos consciência de que não somos melhores nem piores do que ninguém e que, assim sendo, tenhamos a humildade para pedir perdão toda vez que pisarmos na bola e, por outro lado, a ternura necessária para perdoar quem nos magoa;
- que aprendamos com nossos erros e que alimentemos a coragem de sermos pessoas melhores;
- que nos entendamos como parte (e não donos) do planeta e que cuidemos melhor de Nossa Casa;
- que sejamos engajados com as causas da humanidade e que tenhamos a sensibilidade necessária para ver as feridas escondidas em tantos corações, a disponibilidade para caminhar ao encontro dos que precisam de nós e a compaixão que nos irmana.

E que, ainda que incomodados, inconformados, entristecidos com todas as mazelas da vida, tenhamos sempre motivos para dançar na rua, nas igrejas, nos parques ou no cantinho mais íntimo de nossas casas, por causa da esperança que nos constitui e que deve nos movimentar para o bem comum. Que consigamos mergulhar fundo em nossa alma e, diante da Criancinha que escolheu nascer em nossos corações, possamos dar graças por tanto Amor. E que a certeza desse Amor que não nos desampara, que acolhe a cada um de nós do jeitinho que somos e que prometeu jamais nos abandonar embale nossos passos, para além de nossas lágrimas, na linda dança que nos faz mais leves e que contagia outras pessoas a também dançar.

 

Renata Villela  - Dezembro/2021


segunda-feira, 1 de novembro de 2021

Voa, Magali!

 

Quantas palavras ouvimos,
lemos, escrevemos
e aprendemos a sentir...
Hoje, nenhuma delas
parece fazer sentido
diante do silêncio
que não queríamos ouvir.

Seu voo leva consigo
tantas coisas, tantas partes
de cada um de nós.
Seu voo deixa conosco
um girassol colhido
com cheiro de saudade,
no jardim da esperança.

Nessa saudade que fica,
o silêncio ganha voz
e ecoa aos quatro cantos,
rompendo barreiras
de tempo e lugar.
Nas memórias que despertam
dessa saudade,
tantas histórias, tanto aprendizado
e quantos caminhos repensados
a partir de suas provocações.
 
Mais do que literatura,
aprendemos que,
por mais dura que seja a vida,
por mais feridas que estejam nossas mãos,
sempre haverá poesia,
enquanto houver fé e esperança,
solidariedade e a confiança
de que, juntos,
podemos mais do que imaginamos.
 
Mais do que redação,
aprendemos a ter visão crítica
da realidade;
a não ser mais um
a considerar banalidade,
os absurdos que explodem em cada esquina.
Aprendemos a acreditar
que somos capazes de escrever
uma história original e única,
diferente do que, tantas vezes,
o mundo tenta nos ditar.
 
É verdade que nossos passos têm andado cansados
por tantas frustrações,
desilusões....
por vermos nosso país
na contramão do que acreditamos.
De repente, seu voo sacode nosso cansaço
e  vemo-nos envolvidos
num grande abraço,
calado, sentido,
carregado de um sentimento
que não sabemos descrever.

De repente, sua partida deixa-nos órfãos
daquela voz forte,
que misturava veemência e ironia,
com a sabedoria que poucos têm.
Assim, nossos corações voltam no tempo,
num tempo em que várias gerações se encontram
com histórias para contar.
 
Você, Magali, deixou marcas profundas
em cada coração que teve o privilégio
de ser tocado e transformado
por suas palavras, por seu silêncio,
por seu olhar.
 
Inacreditavelmente,
seu voo também,
acordando as lembranças
de tudo o que nos ensinou
vem despertar a inquietude e a consciência
de que não nascemos para assistir a vida de camarote,
deixando acontecer.
 
Sua partida,
sentida por nós de forma tão intensa,
mistura dor e gratidão.
e em nome de tudo o que aprendemos com você, Magali,
prometemos: nós não vamos desistir
de sonhar, de lutar
e de acreditar
nas sementes que estão em nossas mãos.
Seguiremos, sim, semeando o que você cultivou em nós!
 
E, apesar de tudo o que nos angustia
e teima em querer nos paralisar,
não deixaremos que nos roubem
o sonho de um país melhor.
Sonho que você nos inspirou a sonhar;
sonho que, agora,
é de todos nós.
Sonho que ganha o eco
de nossa voz !
 
Voa, mestra, voa!
Pode voar em paz!
Aqui, sua missão foi cumprida!

Renata Villela, em 31/10/2021