segunda-feira, 1 de maio de 2017

Trabalho é dignidade


“Sem o seu trabalho, o homem não tem honra"
                                                           Gonzaguinha

Eu tinha vinte e poucos anos, trabalhava em Recursos Humanos, na Rede Meridien, e uma das minhas principais atividades era recrutar e selecionar pessoas. Recebia as vagas com seus respectivos requisitos, analisava os currículos do cadastro e convocava as pessoas para testes e entrevistas. Em seguida, encaminhava os que mais se enquadravam no perfil solicitado para a liderança requisitante. Se, por um lado, esse é um trabalho muito interessante, (porque nos permite conhecer muita gente e sentir a felicidade quando o “sim” é dado a algum profissional), por outro lado, é doído, doloroso, porque o número de vagas disponíveis nunca é igual à quantidade de profissionais competentes em busca de emprego.
Estava acostumada às longas filas e sempre tive o cuidado de, independente do cansaço de horas a fio analisando currículos e entrevistando pessoas, tratar todos com o mesmo respeito e a atenção. Sei que em muitos lugares os desempregados são tratados como números, mas nós (eu e minha equipe) sempre procurávamos enxergar “a” pessoa, inclusive, tentando quebrar o estresse daquele momento difícil. Muita gente passou por mim; foram muitos anos nesse trabalho. Foi ali que uma mulher marcou minha história profissional.
Fazíamos uma seleção para “Caixa de Restaurante”. Os candidatos faziam alguns testes de competência técnica, participavam de dinâmica de grupo e, depois, das entrevistas.A mulher não era candidata. Bateu na porta de minha sala e pediu licença. Chamei-a para entrar e sentar-se. Ela disse que não tomaria muito o meu tempo, queria apenas me dizer uma coisa. Foi aí que, olhando nos meus olhos, ela falou:
“Um homem se humilha se castram seus sonhos,
Seu sonho é sua vida e vida é trabalho
E sem o seu trabalho,
Um homem não não tem honra
E sem a sua honra, se fere, se mata”     

Depois contou-me que o marido estava desempregado há mais de um ano e estava a beira de uma depressão.Pediu-me que não deixasse – sob nenhuma hipótese – que ele soubesse que ela esteve ali comigo, mas que desse a ele, uma oportunidade. Expliquei a ela como se dava um processo seletivo e prometi que, se ele fosse bem no processo, seria encaminhado para a liderança escolher. Era o máximo que eu podia fazer. Aliás, era o que eu faria, com ou sem a intervenção dela. O fato é que aquele encontro, naquele dia, ressignificou o meu trabalho e a perspectiva que passei a dar ao trabalho de cada um. Eu era jovem demais para entender um monte de coisas, mas naquele instante, eu entendi que o trabalho é muito mais do que uma forma digna de ganhar dinheiro. É um alicerce da dignidade humana. O rapaz –por mérito próprio – conseguiu a vaga de emprego. Depois foi até promovido. Eu saí do Meridien e ele ainda trabalhava lá.

Anos mais tarde, fui eu que vivi a experiência do desemprego, a dor de querer trabalhar e não ter oportunidade no mercado. Senti na pele o quanto a falta de trabalho mexe com a autoestima, o senso de pertença e o próprio sentido da vida. Tive a sorte de ter amigos e família que me apoiaram e a coragem de recomeçar do zero.
Há pouco tempo, tive uma das mais tristes experiências de minha vida profissional: ser obrigada a dispensar profissionais extremamente competentes, por definição da companhia, que terminou com todos os contratos. Ver essas pessoas, competentes, comprometidas, éticas e criativas serem disponibilizadas ao mercado de trabalho, num momento em que o país está com um número crescente de desempregados, doeu demais. Sei bem que ficar sem trabalho é muito mais do que ficar sem um ganha-pão. A sensação de impotência foi enorme e não tem um dia que eu não peça a Deus para que novas portas se abram para essas e para todas as pessoas que estão nessa situação tão crítica em nosso país.
Nesse fim de semana, peguei o uber três vezes e, por coincidência, os motoristas foram três pessoas com mais de cinquenta anos, todos sem oportunidade no mercado de trabalho: um consultor de sistemas da informação, um adminstrador de empresas e um contador. Três motoristas! E, ainda que seja esse um tema bastante controverso, bendita uber que está devolvendo a dignidade a pessoas cheias de gás para produzir e servir à sociedade.
Hoje, dia do Trabalho, todas essas lembranças e reflexões vêm a minha mente e coração. Não posso deixar de agradecer a Deus pela oportunidade de trabalhar não apenas para ganhar meu salário no final do mês, mas para fazer valer minha missão nesse mundo. Sei que – infelizmente – faço parte de uma minoria. Aproveito também esta data para dizer muito obrigado a todos os profissionais que cruzaram o meu caminho e que tanto me ensinaram com seu conhecimento, sua competencia, seu comprometimento e sua postura ética.
Estamos beirando uma reforma trabalhista. No meio das interrogações, ficam apelos: que o significado do trabalho não se perca nos números; que as relações de parceria que geram os melhores resultados não se percam no embate patrão X empregado. Sobretudo, que o trabalho seja o principal gerador de renda em nosso país, para que todos tenham seus direitos preservados, seus ganhos garantidos e suas vidas vividas com justiça e dignidade.
Que esse dia, mais do que de festas, seja de conscientização. Independente de profissão, que todos os trabalhadores recebam nosso muito obrigado por sua dedicação e serviço prestado à sociedade. Que recebam salários justos e que tenham as condições necessárias para cumprir suas atividades laborais.
Aos garis, professores, empregadas domésticas, médicos, engenheiros, porteiros, pintores, manicures, psicólogos, pedagogos, arquitetos, cozinheiros, garçons,motoristas, artistas, administradores, atendentes, padeiros, farmacêuticos, nuticionistas, assistentes sociais, analistas, ambulantes, marceneiros, pescadores, enfermeiros, vendedores, a todos, indiscrimidamente, meu muito obrigado!E minha reverência!
Aos desempregados, meu desejo verdadeiro de que não percam a fé nem a coragem. Façam o que for possível e preciso para que sejam o melhor que puderem ser. Busquem alternativas e foquem no que desejam. Acreditem: tudo passa! E manhãs ensolaradas são mais bonitas depois de noites chuvosas. Creiamos nas novas manhãs!



domingo, 30 de abril de 2017

Meu coração chora a violência



Meu coração, hoje, chora
as escaras abertas
por tanto ódio escorrido
pelas redes sociais.

Meu coração chora
os cortes, os rachas,
o movimento cruel que nos separa
e menospreza o lado oposto,
em vez de integrar-nos
como faces de um mesmo rosto.

Meu coração chora
nossa incapacidade de aceirar
o diferente;
nosso desejo de enquadrar
toda gente
num mesmo jeito de pensar,
sob o jugo da burrice sórdida,
colada como rótulo
na testa dos que escapolem do quadrado imposto.

Meu coração chora
por esse presente míope,
o olhar desfocado,
nosso passado rasgado
e o futuro obscuro
a nos esperar.

Choro por ver, hoje, explícito,
vindo de todo lugar,
o desejo de distribuir violência
brotado na impaciência
que faz sangrar.

Meu coração chora
não pelas divergências
- elas sempre são saudáveis;
não pelas diferenças
- elas sempre são complementares...
Choro pelas guerras que travamos,
uns contra os outros,
massacrando a liberdade
e exacerbando nossa necessidade
de fazer valer nossa verdade pessoal,
assassinando tudo o que não é igual.

Choro a dor da desesperança
no ser humano que se engasga
com suas próprias palavras.
Perdeu-se da criança que brincava em times opostos
que , depois, se misturavam...
Sabia colocar tudo em seu devido lugar!

Choro
porque meu sonho de viver
num país diverso e forte
escorre, verso a verso,
na frustração das algemas
que nos colocamos –mutuamente –
ao trocarmos farpas,
ao incentivarmos tapas,
ao nos perdermos em cisões
que só nos afastam
do bem comum.

O diálogo saiu de moda
e  o óbvio tornou-se unilateral.
A ânsia de apontarmos
o mal que há no outro
só faz aumentar a rede de esgoto
que deixará submersos,
impiedosamente,
todos os nossos ideais.

Choro, mas lá no fundo, ainda acredito
que ainda há tempo
de somar nossos anseios
e colocar um freio
no trator que vem derrubando
nossas construções.

Quero afastar a angústia
que, hoje, me aperta o peito
e voltar a acreditar
que há um jeito
de, respeitando nossas diferenças,
percebermos que conflitos só nos fazem crescer
quando não se encerram em si.

Não sei quando poderei sorrir...
Hoje, vejo muros mais altos que pontes
e fico tonta
diante de tanta agressividade.
Espero que, no futuro,
a história conte esse nosso tempo,
como tempo de transformação,
de superação das algemas e tornezeleiras
para a celebração do  encontro de tantas bandeiras
que, juntas, depois de muito trabalho,
encontraram novas soluções.

Choro, sim,
mas não paro de sonhar.
Os sonhos me mantêm viva
e avivam, em mim, a certeza
de que é necessário dormir
para acordar

num amanhã melhor.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Dia santo,de amor e perdão


Lá fora, chove forte...E a imagem que me vem é a do choro de toda humanidade se derramando sobre nós... O choro de mães que perdem seus filhos nas guerras, no tráfico, no trânsito...O choro das pessoas desempregadas, que sofrem pela insegurança e pelas dificuldades que se repetem... O choro das pessoas doentes, no leito dos hospitais, com suas dores físicas e emocionais... São tantos choros acumulados que, diante da Sua cruz, Jesus, transbordam.
A sexta-feira santa é um dia triste... Não só porque Você morreu há tantos anos,mas também porque Você continua sendo crucificado diariamente....Porque continuamos sem entender (mais ainda, sem viver) Suas palavras. Seguimos cegos para a Verdade Maior.

Seu Amor é tão grande que não cabe em nossa lógica... Volta e meia, em nossas reflexões, teimamos em não perceber o seu SIM. Ficamos indignados diante da maldade humana, mas passamos batido pelo fato de que Você tomou a cruz para si, por Amor. Poderia tê-la negado e pensado em si, mas não ! É difícil pra gente entender um amor que escolhe sofrer por nós, que não usa seu poder em benefício próprio...  Seu Amor foge do esperado e nos surpreende... Seu Amor me instiga, Jesus, me inquieta.

Olhar Seu rosto sangrando, imaginar a dor de estar pregado numa cruz, sendo puxado para a terra pela lei da gravidade, imaginar o sofrimento de não ver Seus discípulos ao Seu lado, tanto escárnio e zombaria...Tudo isso me dói tanto. E dói ainda mais quando penso que mudamos tão pouco. Somos ainda o povo que quer soluções imediatas, que não dá a outra face, que bate as portas das hospedarias e que foge ou nega, na hora que a coisa aperta. Somos ainda o povo que só enxerga a sua própria verdade, que é intolerante com os diferentes e que quer dar as cartas do jogo. Se for diferente do script que escrevemos, não vale.

Diante de Sua cruz, Jesus, só uma palavra brota em meu coração: perdão!  Perdão não apenas pelo que fazemos de errado, mas por todas as vezes que deixamos de fazer o certo. Perdão não só pelo lado mal que mora em nossos corações, mas pelo bem que não exercitamos nas pequenas coisas. Perdão, Jesus, pela cruz que colocamos nas Suas costas, cada vez que nos calamos diante das injustiças, que nos acomodamos diante das coisas do mundo e que nos esquecemos de Sua Palavra e de Seu exemplo de Amor.


Perdão, Jesus! Ajuda-me a ser uma pessoa melhor. Ajuda-nos a ser uma sociedade melhor!

                                                       Renata Villela, 15/04/2017

sábado, 8 de abril de 2017

Bem-vinda, Alice

Alice

Nasceu Alice:
a mais nova princesa do Reino Encantado;
é a vida que chega, nos dando um recado:
criança é esperança
no tempo do Amor.

Bem-vinda, Alice!
Seu choro chegando faz chorar também,
é tanta alegria, que a gente não detém,
transborda em gotas
que fazem sorrir.

 Alice,
menina táo linda e tão esperada,
florzinha cheirosa e já tão amada,
sua vida renova nossa caminhada,
empolga a seguir semeando o que virá.

Vem, menina,
anima essa gente, reensina a sonhar,
convida a gente a buscar o lugar
das mil maravilhas que encantam a vida.

Alice, menina querida, nossa princesinha,
primeira  semente de uma geração,
vem jogar na gente, nova sementinha,
pra fazer florir nosso coração.


                                                                Em 08/04/2017

domingo, 2 de abril de 2017

Viver o presente



Ontem eu estava arrumando uns arquivos no computador e comecei a olhar algumas fotos que me fizeram viajar no tempo. Ao contemplá-las, pensei: “como estávamos felizes! Nem imaginávamos que pouco tempo depois, o que construímos ficaria vivo apenas nas nossas lembranças, nosso grupo se desfaria e encararíamos uma situação tão adversa.” Através daquelas fotos, revivi toda alegria e senti os sorrisos me contagiarem. As lembranças me despertaram a pensar no presente, como um milagre que não se repete.
Quantas vezes deixamos o agora passar porque estamos envoltos nas preocupações do que virá ou na saudade do que se foi? Quantas vezes atropelamos as pequenas coisas, dando valor ao que nem é importante para a vida, ainda que o seja para a sobrevivência? A gente chega nos lugares sem nem lembrar qual foi o caminho que fizemos; termina de almoçar sem nem ter degustado o sabor do que comeu...  A gente senta do lado de alguém, mas abaixa a cabeça para acompanhar o whats app que não para de notificar postagens. Aí, de repente, leva uma rasteira da vida. De cara pro chão, vê amigos com doenças graves, vê pessoas sofrendo o luto de alguém e se dá conta do quanto somos vulneráveis. Tudo passa. Tudo, um dia, se acaba. Se não tivermos visto as sementes brotarem, as flores desabrocharem, o inverno chegará, secará tudo e só ficará o aperto no peito. Precisamos atentar para o aqui e o agora e perceber que o nome “presente” não é por acaso. Aliás, nada é por acaso.
Fico pensando que, talvez, mais do que esperança, precisamos da experiência da vida diária, porque é nela que recarregamos as energias para encarar as turbulências. Porque turbulências sempre virão, o sofrimento é inerente à vida, não depende de nós. O que depende de nós são os laços que criamos, as alegrias que alimentamos, a fé que cultivamos, os sorrisos que despertamos, os sonhos que sonhamos, ainda que, nem sempre, sejamos capazes de realizá-los. É o presente que recebemos a cada segundo que nos mantém vivos, independente do que passou e do que virá.
Estamos vivendo um tempo de desesperança em nosso país e isso contamina, como doença que vai corroendo o brilho de nosso olhar. Vivemos, ao mesmo tempo, o saudosismo de uma época (que nem sabemos – ao certo – se, de fato, vivemos) e a pressa de fazer os ponteiros rodarem mais rapidamente, na expectativa de tempos melhores. Fica uma nostalgia que nos cega para o que não está no mural. Abatidos, seguimos tropeçando nos acontecimentos e não sugamos deles, o nectar da vida. Precisamos encontrar luz no que tem luz de verdade e a única luz que é infinita e eterna é a luz do amor. É bem verdade que amar dói. E como dói! O amor, ao mesmo tempo que nos faz tocar o céu – na dimensão do que está além das coisas desse mundo caótico – nos põe de frente com a consciência de que temos um “prazo de validade” e não somos super heróis. Ao tempo que desejamos fazer tudo por quem amamos, nos damos conta de que, muitas vezes, tudo o que podemos fazer é rezar, ser presença...E amar!  Mas é o amor, o gancho que nos prende – como âncora – ao presente, fazendo-nos viver cada dia. O amor nos faz parar no encontro de olhares, no encanto de sorrisos e na presença contida em cada lágrima derramada, seja por que motivo for, mas que sempre nos lembra nossa humanidade.
A verdade é que, entre sorrisos e lágrimas, encontros e desencontros, constatamos que nada na vida se repete. Por isso, se não vivemos aquele instante, perdemos. O presente, quando vivido intensamente, ao passar, deixa marcas que não passam. Ainda que o tempo passe, o presente se eterniza no além tempo. Por outro lado, se o presente passa, por nós,  despercebido, vira passado. Amassado como papel velho, com cheiro de mofo. E o que passou sem amor, passou...
O tempo não depende de nós. Experimentá-lo, sim.  Que o agora seja, para nós, presente e que o presente, seja para nós, certeza de que estamos vivos para viver.

Renata Villela – Abril/2017


quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Sobre fazer aniversário, ter amigos e sorrir



Ontem foi meu aniversário... Eu havia comentado com as pessoas mais próximas que iria, logo cedinho, dar um mergulho na praia. Também combinei com minha filha, meu genro e meu pai de almoçarmos juntos num determinado restaurante. Nenhuma das duas coisas deu certo.
Ainda era madrugada quando ouvi o barulho da chuva forte no telhado... Teve até trovoada ! E eu pensei, isso é que é uma pessoa abençoada! Como poderia reclamar da chuva e dos trovões se, durante todos os dias do verão, eu reclamo do calor? O fato de não ter dado o mergulho na praia foi só um detalhe... Viva o dia fresquinho que Deus me deu!
Mais tarde, chegando no restaurante combinado, descobrimos que ele estava fechado... Sem luz! Provavelmente, um transformador deve ter estourado com o temporal, pois os sinais de trânsito também estavam apagados. Fazer o quê? Almoçar em outro restaurante! Assim fizemos e eu continuei agradecendo a Deus, dessa vez pela família amada que é meu presente maior. Teremos outras oportunidades de ir àquele primeiro restaurante.
Não sou de fazer festa de aniversário... Nesse ano, o dia não caiu no carnaval nem num final de semana, quando normalmente saímos para passear... Resolvi, então, reunir a família e alguns amigos para lanchar.Nada muito programado, as pessoas que ligaram, se “achegaram”. Tudo simples. Simples como eu sou.
Para completar a mágica do dia, por maiores que sejam as críticas às redes sociais (e eu também tenho minhas restrições), não dá pra negar o quanto elas aproximam pessoas que, na inexistência delas, estariam distantes. Foi gostoso demais receber o carinho “virtual” – e tão verdadeiro – de tantas pessoas queridas! Pessoas de diferentes lugares, que encontrei em etapas diferentes da minha vida, mas cada uma com um lugar especial no meu coração.
De noitinha, enquanto lanchávamos, as pessoas brincaram por eu ter colocado velinhas no bolo, declaração explícita dos meus 52 anos de vida. Até brinquei durante o dia, dizendo que as colocaria invertidas, 25... Mas não é que essa brincadeira se tornou um ponto de reflexão para mim? Com toda certeza do mundo, apesar das restrições físicas crescentes, não troco meus 52 pelos 25, de jeito nenhum. Até porque, só pra começar, se tivesse 25, teria ficado p. da vida por não ter dado o mergulho na praia e não ter ido ao restaurante planejado... A maturidade ensina que essas coisas são pequenas e não valem o nosso mau humor. Não troco meus 52, não! Tudo o que aprendi foi valioso demais. Cada cicatriz tem sua história... E não são poucas as cicatrizes, mas eu escolhi não remoer o que me fez mal, mas celebrar o que tenho aprendido e os amigos que a vida tem me presenteado! É tão melhor assim! Eu escolhi não mais querer agradar ninguém, mas ser quem eu sou, com erros e acertos, sendo coerente (na medida da minha humanidade) com o que penso e acredito, mesmo que desagrade alguém.Por outro lado, aprendi também que mudar de ideia não é vergonha, é sabedoria! Assim, fiz amizades muito mais verdadeiras! Não, não troco meus 52 anos de estrada! Mesmo que doa a coluna, o joelho, o pé... Mesmo que doa a saudade de quem não está perto, seja por que motivo for. Só sente dor quem caminha! Mais ainda, só sente determinadas dores, quem ama. O fato é que, doa o quanto doer, só o amor faz a vida ter sentido...Pelo menos, a minha! E não é frase feita, não.
Durante o dia, recebi muitas palavras de carinho... “Ao vivo”, por telefone, pelo face, pelo zap.... Diferentes formas, diferentes sotaques, mas sempre com uma verdade tão "gostosa". Na verdade de cada uma dessas palavras de carinho que recebi, senti forte em meu coração, as bênçãos de Deus. Bênção derramanadas sobre mim através de cada pessoa que a vida colocou em meu caminho. Sem elas, com certeza, eu seria bem diferente do que sou. 
Pelas felicitações que recebi, me toquei de que o sorriso é minha marca registrada.Que bom! Não tenho como negar que ele nasce da alma. Uma alma que, apesar de todos os ventos contrários, de todo cenário adverso, ainda acredita na vida e no amor entre as pessoas. Meu sorriso é o farol dessa alma inquieta que ama, mesmo sabendo que “amar dói”. Meu sorriso é resposta desse ser peregrino que se enxerga eternamente aprendiz e, a cada dia, descobre e redescobre que a missão abraçada se renova a todo instante. Meu sorriso é a expressão mais genuina da alegria que vem de Deus e que brota em cada encontro, renova-se a cada abraço ou palavra de carinho e se eterniza em certezas que palavras não descrevem. Meu sorriso - definitivamente - não é um sorriso facebookiano, a espelhar a alegria que todo mundo quer ver... E ter! Confesso que, às vezes, ele até faz parte da pose, mas o que vem de dentro sempre escapole e grita mais alto. Não faço parte - graças a Deus - da turma que vê o mundo cor-de-rosa, mas também, não o vejo em tons escuros e amendrontadores. Acho que, acima de tudo, meu sorriso é de esperança, de fé. Nasce do amor que me alimenta. 
De noite, custei a dormir, pensando numa forma de agradecer a todas essas pessoas, pelo bem que me fizeram durante esse dia e, muito mais que isso, pelo bem que me fazem a cada dia. Por elas, rezei, pedindo as bênçãos de Deus. Éra o que de mais precioso tinha a fazer! Assim fiz. Em seguida, acolhi os desejos de cada um em meu coração e, sorrindo pela alegria do amor, adormeci.



domingo, 29 de janeiro de 2017

“Maria, ensina teu povo a compadecer-se!”


Fui “chamada” (porque foi um chamado de Deus) para falar sobre esse tema... Por uns dias fiquei pensando, rezando e refletindo sobre a palavra “compadecer-se” e até pensei em focar minha meditação na etimologia e significado dessa palavra tão forte. Compadecer é ter compaixão. Com + paixão =  com o amor que dá a vida - como a paixão de Cristo, que abraçou a cruz por nós. Esse chamado foi para fazer uma meditação fazia parte da novena de Nossa Senhora da Luz. Cada dia da novena teve como tema “Maria, ensina Teu povo a....”. O segundo dia era justamente o que pedia a graça de “compadecer-se”.  

Maior do que a responsabilidade que me havia sido confiada, o que eu sentia era uma tranquilidade que eu nem sabia explicar. A sensação é de que iria falar sobre alguém tão íntimo, que não precisava estudar nem me programar... Só sentir, só rezar...E foi assim que,somente  mais ou menos três dias antes do dia que iria falar sobre esse tema,  parei para ler a passagem bíblica do dia (Lc 1, 39-45): a visitação de Maria à sua prima Isabel. Incrível que não sei quantas vezes já li essa passagem (que, por sinal, é uma das que mais gosto da vida de Maria). Dessa vez, contudo, foi diferente: mergulhada na oração, a partir da leitura, fui escutando o que precisaria falar para as pessoas. As ideias surgiram tão claras que – pela primeira vez na minha vida – não escrevi antes de falar. Meu coração registrou tudo dentro de uma lógica tão perfeita que, qualquer coisa que eu viesse a escrever, correria o risco de perder o fio da meada. Foi assim que deixei o coração falar, sem programar nada.

Agora, dias depois, atendendo ao pedido de amigos, vou tentar escrever o que disse no dia:

Maria visita sua prima Isabel.

1.     Fico pensando nas grávidas de hoje que só comunicam a gravidez a partir do 3º mês, devido ao risco de a gravidez não se consolidar. Imagina se Maria, em algum momento, tivesse se preocupado com esse risco? Jamais encararia a caminhada árdua até a casa de Isabel. Aliás, antes de falar da visita propriamente dita, é impossível não falar do momento que Maria estava vivendo. Há pouco tempo tinha recebido a visita do anjo Gabriel, anunciando-lhe que seria a Mãe do Messias tão esperado. Uma menina... Quanta coisa deve ter se passado na cabeça dessa menina, surpreendida pela visita do anjo, com a notícia que transformaria toda sua vida! Como se isso fosse pouco, tinha sua relação com José, o casamento, a mudança de planos, o pacto de confiança... E o risco social, o apedrejamento, o preconceito, o risco da marginalização... Problemas sérios, situação grave, sobretudo considerando que era uma menina... Acontece que era uma menina plena de Deus, “gestada” de um Deus que lhe preenchia por inteiro. 
Quando estamos assim, mergulhados no amor de Deus, colocamos nossos problemas no devido lugar. Não esquecemos deles, não esquecemos de nossas dores nem de nosso sofrimento, mas conseguimos colocá-los num cantinho (sob a guarda do Amor de Deus) e, assim, somos capazes de olhar para o outro, sentir o sofrimento do outro, viver a experiência da dor do outro e ir ao seu encontro. Foi isso que Maria fez: guardou em seu coração o que era seu e foi ao encontro de Isabel.

     2.    Maria sobe as montanhas de Judá. 
     Quando falamos em montanhas, podemos pensar nelas sob duas perspectivas. A primeira, lembrando que subir a montanha – na bíblia – é viver a experiência do Sagrado. Foi no alto da montanha que Moisés recebeu as tábuas da Lei, foi no alto da montanha que Pedro, Tiago e João viram Jesus transfigurado... Foi preciso subrir as montanhas para que Maria encontrasse Isabel, ou seja, no encontro com o outro,vivemos a experiência do Sagrado.

A outra perspectiva de “montanhas” é aquela que nós, seres humanos, sentimos diante delas: a expectativa de grande dificuldade, dos obstáculos a transpor. E aí, fico pensando em quantas montanhas nós temos colocado entre nós e os outros.  Quantos obstáculos criamos ou supervalorizamos para não ir aonde o povo está, para não fazer o que Jesus espera de nós, para nos mantermos acomodados em nossos mundinhos.

3.    Maria vai à casa de Isabel, não traz Isabel para sua casa. Assim, ela vai viver a experiência de Isabel, no mundo de Isabel. Não pressupõe nada, vai lá. Vê com seus próprios olhos o que Isabel está precisando e a atende em suas necessidades. Não faz o que acha certo, não dá o que imagina que ela esteja precisando. Vai ao mundo de Isabel, sente suas dores, compartilha as dificuldades de Isabel e a serve no que ela necessita. Esse é o grande aprendizado que Maria nos dá: para servir é preciso ir à casa do outro e viver com ele, a sua experiência. Compadecer-se e depois doar o que o outro precisa. Quantas vezes nós fazemos exatamente o inverso? Queremos trazer o outro para nossas verdades, fazer o que julgamos correto. Enchemos-nos de julgamentos e ideias pré-concebidas e achamos que estamos “amando como Jesus amou” . Fazendo o bem. Aliás, a própria expressão “vamos fazer o bem” já pressupõe uma certa superioridade de nossa parte. Como se o bem estivesse em nossas mãos... Raramente “viajamos” ao universo do outro para compreendê-lo em sua essência. Partimos do pressuposto de que quem está na rua precisa de trabalho, não de comida; que os presos “merecem” tudo o que passam nas prisões superlotadas; que os idosos precisam entrar em nossa realidade, em nosso ritmo; que não devemos dar nada às crianças que pedem qualquer coisa na frente dos supermercados. Muitas vezes, ainda, queremos que o outro faça o que nós fizemos, porque deu certo pra gente, como se fosse uma solução pré-moldada, ignorando que o outro é diferente de nós. É difícil pararmos diante de cada um em suas realidades únicas, para conhecer seu histórico de vida, o contexto em que vivem, enfim, suas vidas. As nossas verdades sempre prevalecem diante da real necesssidade do outro. Maria podia ter pensado como nós: o que Isabel, com toda essa idade, foi inventar de engravidar? Não sabia que não iria dar conta? Não imaginou que fosse acabar dando trabalho aos outros? Não, nada disso. Maria foi ao mundo de Isabel, experimentou tudo o que Isabel estava sentindo, compadeceu-se = sentiu as suas dores e fez o que Isabel precisava que fosse feito!

Maria, Mãe Querida, ensina-nos a nos compadecer de todos os que sofrem à nossa volta. Os doentes, os presos, os idosos, as crianças... Ensina-nos a compadecer dos que estão nas ruas, nas periferias e também dos que estão no apartamento do lado do nosso ou em nossas próprias casas.
Ajuda-nos a vencer montanhas e sair de nossas casas, de nossos mundos, a olhar além de nossos próprios umbigos, confiando nossos problemas ao Deus que cuida de tudo e tendo olhos para olhar os outros. Inspira-nos a escutar a voz de Deus e a nos preencher por Seu amor, para doá-lo a quem necessita. Sem julgamentos, sem verdades pré-concebidas... Só com amor. Muito amor. Lembrando que amor é compartamento, é atitude, não é sentimento. O amor que Jesus nos ensina vai além do gostar. Quando o ponto de partida é ELE, somos capazes de amar, mesmo quando não gostamos....

Temos tanto a aprender, Maria! Ensina Teu povo a compadecer-se!


Tentei repetir aqui, como foi no dia que fiz essa meditação, as palavras que brotaram em meu coração. Com certeza, não está exatamente igual, mas acho que consegui colocar aqui a base do que falei. Foi o fruto de um momento de profunda oração, de encontro com essa Mãe que tanto amo.

Que Ela os inspire como tem me inspirado. E que, seguindo seu exemplo, saiamos de nossas casas, encaremos as montanhas e abracemos o Sagrado que vive em cada coração que chora, que sofre e espera.

Renata Villela  -  Janeiro/2017