quinta-feira, 15 de março de 2018

Marielle, presente !




Quando no meio da lama política
e do caos social;
no meio das guerras do tráfico
e do abuso policial,
uma voz se levanta
alertando sobre o que é ilegal (ou imoral)
é sinal de que alguém sobrepôs-se ao perigo
e assumiu – com fervor – seu papel.

Na favela,muitas vozes se calam
diante da realidade imposta
e da luta desgastada
pela sobrevivência...

Na favela, poucas vozes ousam gritar
e as que gritam se expõem
e as que se expõem, arriscam-se.
Abalam estruturas consolidadas, sim,
mas, infelizmente,
 são surpreendidas pelo fim da história
antes do último capítulo.

Marielle, negra e mulher,
Voz de Acari e da Maré,
assumiu para si a dor
e o grito sufocado
de tantas minorias.

Ironia?
Agonia...Selvageria...Covardia...
Executaram Marielle
de forma brutal, de um jeito cruel.
Mataram Anderson, pai de família,
mais um trabalhador que morre
no exercício de sua profissão.
Marielle, mais uma mulher que perde a vida,
mais uma negra que aumenta a estatística
da violência em nosso país...
Triste país, órfão de seus filhos.

Executaram Marielle
mas não calarão a voz que denunciava 
o que outros temiam falar, tanto mal....
Nem tampouco pararão a luta dos que acreditam
em uma sociedade mais justa e igual.

Marielle, antes vereadora de uma única cidade
torna-se embaixadora do povo de todos os lugares,
rompendo fronteiras e nacionalidades.
Marielle, socióloga que transformou estudos acadêmicos em ação
passa a marcar com seu sangue a história desse país sem direção.
País que agoniza
porque não prioriza a vida
sob nenhuma perspectiva,
em nenhuma situação.

Uma voz que se cala
na vala da morte mais cruel.
Não! Não se calará!
Mais um tiro,
Tantos tiros,
mais dois corpos jogados ao chão...

Os que tentaram calar Marielle
esqueceram que a voz que ela gritava não era só dela,
vinha dos moradores de todas as favelas
e de todos os bairros nobres (por que não?)
Vinha de todas as pessoas cansadas da violência
e de tanta impunidade
da leviandade
e de tanta distorção de valores.

Aos que tentam comparar a morte da Marielle
com tantas outras que acontecem todos os dias
eu só digo que morte não se compara,
que a dor que a violência causa
em que circunstância for
abre escaras profundas em todo e qualquer coração.

A morte de Marielle, entretanto,
é mais que uma vida a menos:
é tentativa hipócrita de de calar a voz
de quem não abaixou a cabeça.

A morte de Marielle
reune em si todas as mortes que ficaram impunes
e foram esquecidas;
reune em si todas as vozes que ficaram caladas
e todas as dores que não foram tratadas.
A morte de Marielle dá nome
a todas as vítimas anônimas
e a todas as famílias enlutadas.

Em paralelo,
enquanto  a morte de Marielle acorda
toda coragem adormecida
de um povo desacreditado no amanhã,
a vida de Marielle instiga 
e inspira cada um de nós
a também soltar nossa voz,
assumir nosso papel
e cumprir nossa missão.

Marielle, presente!
Sua luta não foi em vão.

sábado, 13 de janeiro de 2018

Experiências inusitadas, percepções ampliadas, coração inquieto (Sobre passar 15 horas na fila para recadastramento biométrico)

                                                                        
   
Tudo poderia ter sido diferente se eu não fosse uma pessoa tão exigente comigo mesma... Ou, por outro lado, se eu fosse mais atenta aos prazos (deixei para me preocupar com a biometria já em novembro)... Perdi o agendamento que havia feito por estar viajando a trabalho e, não querendo correr o risco de ter o título cancelado, encarei o desafio das super filas, mesmo com alguns amigos dizendo que era maluquice e que haveria condições de fazer depois do dia 31 de janeiro, data colocada como limite.
Preocupada comigo devido aos problemas de saúde que me acompanham, minha filha se propôs a madrugar na fila para que eu chegasse um pouco mais tarde. Assim fez! Às 5:30h da madrugada lá estava ela tentando uma senha para mim. Ficou na fila de espera, visto que as primeiras senhas haviam sido entregues às pessoas que não conseguiram atendimento no dia anterior. Cheguei às 8:00h, esbaforida,  pois chamaram pessoas da fila de espera onde ela estava e a possibilidade de perder a vez era algo inimaginável para mim.  Saí de casa preparada para a empreitada que via nas reportagens da TV: filas imensas sob sol e chuva. Eu sabia que dificilmente daria conta daquilo, mas estava disposta a tentar.
Estava preparada para algo tão ruim que fui surpreendida positivamente ao ver que no lugar do sol e da chuva, havia cadeiras arrumadinhas no saguão de entrada da Assembleia Legislativa. Mais do que isso: havia várias térmicas de café e garrafas de água mineral à disposição das pessoas. Confesso que fiquei positivamente surpresa. Por pior que fosse a perspectiva de espera, esse cuidado com as pessoas por parte dos funcionários daquele lugar (infelizmente anormal nas instituições públicas de nosso país) me chamou atenção. Talvez tenha me ajudado a ter as forças para continuar ali, mesmo passadas três horas e ter recebido a notícia de que somente 28 pessoas haviam sido atendidas (14 da fila normal e 14 prioridades).
Era quase meio-dia quando um segurança chegou no lugar onde estávamos, informando-nos que anotariam nossos nomes e números de RG para que fôssemos prioridade no dia seguinte, visto que não poderiam mais garantir atendimento. Quem quisesse arriscar, arriscasse, mas seria sem garantias. O que faz uma pessoa nessa circunstância? Com a manhã de trabalho já perdida, arrisca a tarde, mesmo com toda lentidão do sistema? Nessas horas, as dúvidas se multiplicam, as interrogações parecem pulsar na cabeça e aquela culpa por ter deixado o recadastramento para os últimos meses fica ali atormentando. Sem saber que decisão tomar, fui deixando o tempo passar. Nesse tempo, algumas pessoas desistiram, outras persistiram. E eu ali, pagando pra ver até onde minhas forças iriam. Durante toda manhã, minha filha estava ali, fiel escudeira a me dar força. Comprou lanchinho na lanchonete, cuidando de mim. Privilégio, o meu! Na hora do almoço precisou sair para resolver uns compromissos. Logo depois que ela saiu, o mesmo segurança aproximou-se novamente do grupo dos persistentes e falou: “garanto a vocês que farei o possível para que consigam ser atendidos”. Uma das pessoas que estava na fila brincou dizendo: “é bom pra gente e menos trabalho pra você, né?”. Naquela hora o rapaz parou e, com os olhos lacrimejando, falou para nós: “Para mim não muda nada, o trabalho é o mesmo. Vou fazer de tudo porque me coloco no lugar de vocês e fico muito feliz quando conseguimos fazer com que o esforço e o desgaste de vocês seja recompensado.” Os olhos marejados e a verdade das palavras daquele segurança me deram duas certezas:
1.    Eu deveria ficar;
2.    Eu aprenderia muito com a experiência daquele dia
Decidida a ficar, logo depois fomos chamados a fazer nosso cadastro para receber nossas senhas. Minha senha? 115. Às 13:00h, as senhas que estavam sendo atendidas eram a 28 para fila normal e prioridade. A primeira pergunta que eu fiz ao segurança da nova sala e à recepcionista foi: “vocês garantem que seremos todos atendidos?” Quando a resposta veio positivamente, senti aquela alegria por ter tomado a decisão certa de ficar e arriscar. Eu não tinha ideia do que ainda viria pela frente,  mas alguma coisa me dizia que eu não estava ali por acaso.
Não adiantava ficar olhando para o relógio. Como pessoa de Ciências Humanas, troquei a olhadela frequente no celular pelo olhar, escuta e observação do que estava acontecendo a minha volta. E saí ganhando! Tenho certeza de que, por mais que o dia tenha sido pesado e muito cansativo, foi também uma experiência valiosa. Algo genético, herdado de minha avó e de minha mãe, não me deixou nem sequer abrir o livro que eu tinha nas mãos. Logo eu já estava conversando com o povo, dando risada e aprendendo com a sabedoria de cada um.
As conversas começaram sobre os mais diferentes assuntos. As redes de relacionamento foram se formando. Um contava uma história e os outros comentavam. Alguém contava uma piada e todos riam. Uma pessoa se aborrecia e quem estava em volta intervia. Um recorte da nossa sociedade ali, naquela fila gigante, naquela espera sem fim...
Sentadas naquele corredorzão, pessoas de diferentes culturas, classes sociais, profissões, idades e expectativas. Sentadas naquele corredorzão, pessoas completamente diferentes, igualadas, cada vez mais, no cansaço, na fome, na indignação. Se por um lado todos nós sabíamos que o recadastramento estava aberto por mais de 10 meses e que deixamos para os últimos meses (daí nossa parcela de responsabilidade em ter que enfrentar fila), por outro lado, nada justificava – em pleno século XXI – com a tecnologia que temos, pessoas passarem horas e horas para fazerem um processo simples de biometria.Cá entre nós, mais um exemplo de desrespeito do governo em relação ao povo. Sacrifício desnecessário tanto para o povo quanto para os profissionais que vem trabalhando horas a fio, exaustivamente.
 Os diálogos transitavam entre os papos sobre o cotidiano e a indignação. De um modo geral, não havia revolta. Ainda que todos estivessem aborrecidos com a situação, havia um tom de respeito -por parte dos funcionários que nos atendiam - que trazia certa acolhida: os garrafões de água e as térmicas de café sendo trocados periodicamente, banheiros sempre limpos, funcionários tratando as pessoas com educação e respeito. Até livros recebemos, publicações patrocinadas pela ALBA que um funcionário distribuiu para nos ajudar a passar um tempo com a leitura de autores baianos.
Olhar para aquelas pessoas dava um nó em meu peito. Ali de meu lado, minha filha indo e vindo, me trazendo lanche, fazendo companhia. As pessoas mais próximas comentavam comigo como era bom ter filhos que cuidavam dos pais. A presença dela fez com que um dos temas das conversas fosse a importância da família. Enquanto as pessoas falavam de seus pais, de seus filhos, suas faces se transformavam, os olhos brilhavam. Isso servia como combustível. Interessante foi pensar que despertamos coisas boas nas pessoas com nossas atitudes: a presença de minha filha ali fez com que cada um pudesse falar um pouco de sua família e, para quem acha que família não é mais um “valor”, pude constatar que é sim !
De vez em quando, um evento movimentava o ambiente e aquele amontoado de pessoas  ia se transformando num grupo, por mais estranho que isso possa parecer a primeira vista. Era só chegar um funcionário com crachá no peito acompanhado por uma ou duas pessoas com cara de banho tomado e estômago cheio que logo dois ou três se levantavam de seus lugares e seguiam determinados em direção a porta da sala onde o recadastramento estava acontecendo. Auto-entitularam-se : “fiscais das senhas”.  Num primeiro olhar, era engraçado ver a cena se repetir. Um olhar mais apurado via o quanto aquela cena era carregada de significado. A atuação dos “representantes” foi imediatamente validada por todos e, quando um estranho se aproximava, alguém gritava de um canto: “fiscais, venham pra porta”. E eles vinham. Confesso que, durante a tarde, não vi ninguém conseguir entrar. A demora no andamento da chamada das senhas fez muita gente dizer que estavam entrando por outra porta. Não posso dizer o que não vi. O que vi foi, mais de uma vez, alguém querer furar fila e não conseguir, “barrado” pela força do povo junto. Vi também, mais de uma vez, o segurança perguntar a quem era o primeiro da fila a que horas tinha chegado e, ao ouvir dessa pessoa que ela havia chegado às 4:00h da madrugada, o próprio funcionário da assembleia e a pessoa desistirem de entrar, por respeito ao sacrifício dos que ali estavam. Assim, as horas foram se passando. Uma professora recebeu o apelido de “delegada” por ficar lembrando o direito dos que estavam ali. Um rapaz de boné desconfiava até da sombra e, vez por outra, abria um pedacinho da porta para ver como as coisas estavam se passado dentro da sala da biometria. Ao sair, falava alto: “tudo certo, minha gente”. Ao mesmo tempo que eu ria, eu me emocionava.
Quando a noite chegou trouxe com ela os rostos abatidos pelo cansaço, a fome tirando a graça e a falta de paciência e tolerância. O sistema melhorou e as pessoas começaram a ser chamadas mais rapidamente, fazendo o contraponto da baixa de energia. Quando o limite parecia chegar, os ânimos se reavivavam, um tema novo na conversa, uma criança correndo pelo corredor (sim, elas estavam lá desde a madrugada também, já que algumas mães não tinham com quem deixa-las). Quanto mais rápido as senhas eram chamadas, uma vida nova parecia ganhar lugar. Os ponteiros do relógio também pareciam rodar mais rápido... 20:00h, 21:00h.... Tudo caminhava bem até que, ao chamar a senha 102, aparece uma pessoa de banho tomado, arrumada, cheirosa,maquiada até. Parecia que uma bomba atômica havia caído sobre aqueles corpos suados, cansados, famintos. Todos se levantaram sentindo-se traídos e feridos no mais profundo de suas almas. O segurança repetia que a pessoa estava com a senha e o povo gritava que tinham clonado uma senha, que aquilo era privilégio. Não houve xingamentos nem violência, mas muita revolta. Houve explicações por parte de funcionários da AL e, ao que tudo indica, algum funcionário pegou a senha cedinho, guardou e, quando estava mais perto do horário de atendimento, ligou, avisando as pessoas para irem. Elas foram. Muito provavelmente sem nenhuma noção do que se passava com as pessoas que estavam naquele corredor, muitas delas desde às 5:00h da madrugada. Diante daquela revolta e do que eu senti estando ali – também me senti desrespeitada – parei para pensar que qualquer um de nós poderia estar na situação daquelas pessoas. Quem não já usou de conhecimento para facilitar um serviço, sem a mínima noção do mal que estava fazendo – indiretamente – a tantas pessoas? Quantas vezes já ouvimos (e já perguntamos): “alguém conhece alguém no...... ???” Quantas vezes, por causa desses conhecimentos, já conseguimos marcar uma consulta médica ou um exame bem antes de outros, já tivemos um problema no banco resolvido mais rápido e por ai vai... “Quem não tiver pecado, que atire a primeira pedra”. Pois, naquele momento, eu senti vergonha de fazer parte de um grupo de privilegiados que têm acesso a praticamente todas as coisas de uma forma muito mais fácil.
Eu poderia ter saído na hora do almoço e só voltado perto da hora do atendimento também. Desde cedo, não tive coragem. Não estaria fazendo nada de “errado”, mas não tive coragem de me eximir daquele sacrifício. Não sei explicar, mas foi assim. Sei que muita gente deve estar me chamando de doida ou de idiota, mas minha consciência me fez ficar e sentir na pele o que eu senti. A partir dessa experiência, comecei a rever minhas atitudes, por mais que elas pareçam ser “normais.” A partir de agora, terei mais cuidado ainda com as pessoas. A partir de agora, pensarei mais ainda na diferença entre direito e privilégio, pois direito não tem distinção. A partir de agora, mais do que sempre fiz, lutarei – dentro de minha limitações - pela qualidade de vida dessas pessoas de nosso país, obrigadas a se submeter a situações desumanas, como passar 16 horas em uma fila para fazer um recadastramento biométrico.
A culpa não é só do governo, não. A culpa dessa situação é de todos nós que nos omitimos diante de situações como essa, que fechamos nossos olhos para tantas coisas e não nos preocupamos porque elas não nos atingem. Imagino o que sejam as filas dos hospitais públicos... Aliás, nem sou capaz de imaginar. O recadastramento é uma vez só. As filas do dia a dia se repetem. A dificuldade para se ter o que é básico se repete, assim como se repetem os privilégios.
Quando a pessoa da senha 102 saiu da sala, acompanhada por um funcionário, foi aplaudida fortemente, aos gritos de “muito bem”. Senti vergonha por ela. Não sei se ela tinha dimensão do que significava ela ter entrado ali, bem alimentada, descansada e perfumada. Imagino que não.
Saí de lá, no carro da minha filha, já tinha dado 22:00h. As pessoas que ainda esperavam atendimento, combinavam umas com as outras de saírem juntas pois, naquele horário, não tinha mais ônibus que passava por perto e teriam que caminhar até a avenida Paralela para pegar o ônibus que as levasse a alguma outra estação para que conseguissem chegar em casa. Eu até ofereci carona para a moça que estava perto de mim, mas ela não aceitou, já que um rapaz havia se disponibilizado a caminhar com ela até o ponto. Junto comigo levei cada história, cada reclamação e cada sorriso.
Ao deitar na cama, depois de tomar meu banho, fiquei pensando naquelas pessoas todas... Onde estariam? Teriam conseguido o ônibus para casa? (depois de meia-noite os ônibus diminuem bastante) Teriam chegado a salvo ? Nossa cidade já está perigosa de dia, quanto mais na madrugada...
Fui dormir triste e incomodada. Profundamente incomodada. Coração inquieto. Indignada. Assustada com nossa apatia. Nós, que não temos essas filas como parte de nossas rotinas, continuaremos de olhos fechados para essa realidade? Nós continuaremos nos beneficiando de amizades que pegam a senha por nós, marcam a consulta para nós?  E a maioria da populaçãopermanecerá nas filas para fazer biometria, para agendar uma consulta, para matricular seus filhos...


“Que tenhamos coragem de fazer diferente
  onde tudo é igual,
  Que sejamos agentes, construindo a mudança

            bem no mundo real.”

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Mensagem de Natal


2017 vai se pondo, abrindo espaço para que 2018 ocupe seu lugar com todo brilho de um ano que amanhece. Fico pensando que a criação do calendário, apesar de ser uma criação humana, foi – com certeza – uma inspiração divina. Deus sabia de nossa necessidade de fechar ciclos para iniciar outros e, quando dezembro chega trazendo com ele o finzinho de nossas forças, vem a celebração do Natal.
É o Natal (o verdadeiro!) que nos convida a arrumar nossos corações para que o Amor nasça. E Ele nasce pequenino, na simplicidade do que há de mais bonito na vida. Sim, porque engana-se quem imagina que a beleza da vida e a felicidade verdadeira encontram-se nos grandes momentos, nas aquisições mais caras, nos eventos mais glamurosos. A felicidade dorme num berço, pulsa num abraço, brinca num olhar encantado com as coisas belas da vida e se espalha nos sorrisos nossos de cada dia. A felicidade verdadeira só acontece quando nos encontramos com nossa essência e percebemos as maravilhas que a vida nos dá a partir do momento que nos doamos – como presente – para alguém!
Não adianta os shoppings começarem suas ornamentações em outubro! Não adianta os apelos para que compremos mais, tentando nos impor a verdade de que valemos pelo que temos... O Papai Noel com suas renas são doces fantasias que animam nossa infância, mas o Natal é mais que Papai Noel.
As filas de pais com seus filhos, esperando para sentá-los  no colo do “bom velhinho”, são enormes. Diante dos presépios, contudo, quase ninguém... É que, ao contrário do Papai Noel que nos leva ao mundo da fantasia, o Menino Jesus nos convida ao mundo real...
 Dezembro chega trazendo com ele um novo chamado para cada um de nós: deixemos o Amor habitar – de verdade – em nossos corações e transformar nossas vidas! Vamos lá, coragem !Arregacemos nossas mangas e comecemos nossa faxina interior. Joguemos fora tudo o que juntamos ao longo do ano: zangas, mágoas, a ansiedade para cumprirmos tudo o que nos obrigamos, a pressa que nos faz atropelar o presente, desencontros, tristezas e medos. Guardemos apenas o que nos fez crescer a partir de cada uma dessas experiências. Tiremos do baú cada momento especial que vivemos: cada alegria, cada abraço, momentos de perdão, descobertas e reencontros, toda beleza que a natureza nos oferta e que as pessoas nos presenteiam.
É tempo de Natal ! Para nós,cristãos, o aniversário do Menino Deus e a renovação de nosso compromisso de “amar como Ele amou e viver como Ele viveu”. Tempo de relembrar a certeza de um amor tão profundo e verdadeiro, que se fez criança e veio viver entre nós, conhecer nossas mazelas e nossos tesouros e nos redimir de nossos pecados. A chegada do Menino Jesus, nascido em uma família pobre, que nem encontra casa para pousar, é inquietante! E é essa inquietação  que precisa nos mover para que consigamos fazer valer o que Ele nos ensinou.
Independente da questão da fé, eu desejo profundamente que essa mensagem do Amor que integra e se entrega pulse em todos os corações. Cristãos, judeus, muçulmanos, budistas, candomblecistas, espíritas, messiânicos, umbandistas, ateus e pessoas de todas as crenças e não crenças, que o amor seja a mola propulsora de nossas vidas! Isso é o que importa ! É disso que precisamos e a isso somos chamados!
Vivemos um momento crítico. Bombardeados de notícias ruins vindas de todos os lados: atos terroristas, massacres, chacinas, assaltos e assassinatos, corrupção. Secas e enchentes. Doenças graves, hospitais superlotados, escolas vazias, ônibus queimados, tráfico de drogas e de pessoas.Terremotos, imigrantes sem oportunidades, racismo, preconceito, exclusão social. Sonhos roubados de crianças, adolescentes sem esperança, políticos olhando somente para seus umbigos, aposentados dormindo ao relento, sem teto e sem chão.  No meio de tudo isso, uma única notícia é capaz de nos fazer levantar a cabeça e seguir em frente: o Amor procura uma manjedoura para nascer e escolheu o nosso coração.
Deixar nascer o Amor em nós é fazer um pacto de esperança! Sabemos – por mais que o mundo diga o contrário – que não estamos sós. Aceitar o convite para natalizar vidas é, ao mesmo tempo, bênção e compromisso, alegria e inquietação pela dor do outro, esperança e disponibilidade para servir a quem prencisa de nós. Deixar nascer o Amor em nós é mudar o foco e olhar de coração para coração. É redescobrir o essencial e reencontrar certezas.
Que o Natal seja, para todos nós, tempo de beber da Certeza! Certeza de que viver vale a pena porque amar vale a vida!


Renata Villela  - Dezembro/ 2017

Para quem quiser escutar e contemplar essa mensagem, basta clicar aqui:

Video: Mensagem de Natal

domingo, 22 de outubro de 2017

Quem pegou a bússola?



Há tempos estou com vontade de escrever para partilhar meus sentimentos, meus questionamentos, minhas inseguranças e minha esperança. Às vezes me sinto como se estivesse naquelas piscinas de bolas que existem nos parques infantis, só que numa piscina funda e com o piso escorregadio. Cada dia jogam mais bolas e mais difícil se torna manter-me de pé e respirando. Outras vezes, me sinto no meio de uma multidão que, a cada hora, responde a determinado comando, mas está sem bússolas e, por isso, não sabe ao certo para onde está indo. O fato é que, a cada dia, somos surpreendidos por notícias que nos deixam indignados: são atentados terroristas, chacinas, políticos corruptos acobertados pelos que detêm o poder, jovens que matam jovens, enfim... E é assim que os meus sentimentos se encontram com os seus e quando olhamos em volta, estamos todos indignados, aturdidos, paralisados. E aí?

Tenho pensado no papel das escolas, das famílias, dos amigos, da vizinhança, da enxurrada de informações, da tecnologia, da espiritualidade (seja na vivência das religiões ou não) na formação de nossas crianças e de nossos jovens. Criamos esse emaranhado todo que é o século XXI e, agora, cabe a nós, desamarrar a realidade para ofertar a eles, um mundo – pelo menos – com esperança.

Não vou falar de cada um desses pontos que citei acima detalhadamente; quero expor as coisas que venho pensando, como sementes lançadas ao vento. Não tenho pretensão de trazer resoluções nem – muito menos – quero “colocar na roda” famílias e escolas. Espero apenas que as minhas palavras pousem em seus corações e façam brotar alguma nova reflexão. E que, da soma de nossas reflexões, geremos algum movimento novo.

Começando pelas escolas, incomoda-me profundamente ver que muitas instituições de ensino tornaram-se empresas, deixando para segundo plano, seu caráter educador. São empresas que oferecem conteúdos para que seus alunos (clientes) passem no vestibular. Importa satisfazer as expectativas dos clientes (pais e alunos), assim como fazem as concessionárias de veículos e as lojas de conveniências. Com isso, a educação se esvaziou.  O cuidado com o outro, o respeito aos professores, a ética e a cidadania, a transmissão dos valores essenciais à vida em comunidade perderam-se no meio das fórmulas de física, das listas de exercício de matemática e dos simulados periódicos.  Nesse contexto, cresce o desrespeito aos professores que não podem mais agir como educadores, já que o que se espera deles é apenas o fornecimento de informações. Nesse contexto, cresce o bullying, pois os alunos perderam a percepção da convivência com os diferentes e o movimento de criar vínculos verdadeiros com os colegas, a fim de fazer deles, amigos.

Das escolas para famílias, entramos num ambiente de carência e desencontros. A grande maioria dos pais está no mercado de trabalho, trabalhando cada vez mais para dar cada vez mais coisas a seus filhos. Não só produzem para saciar suas necessidades, mas criam necessidades para atender a ansiedade de preencher um vazio crescente, que não pode ser preenchido. Nessa roda-viva, no pouco tempo que resta para dar atenção aos filhos, fica difícil desagradá-los, dizer não, colocar limites. Mais do que os próprios filhos, os pais querem ser amados e é aí que começa a distorção de papeis e responsabilidades. Filhos não sabem mais qual o seu papel e ditam as regras. Pais não sabem mais seu papel e entram no jogo. As carências de um e outro criam uma distância entre quem realmente são e os papeis que desempenham. Assim, para os filhos, cada vez mais cursos e atividades; para os pais, cada vez mais cansaço e culpa. Para os dois, cada vez menos amor e verdade. Menos diálogo, parceria nas dificuldades e alegria verdadeira nas celebrações

Nossas crianças e nossos jovens vão crescendo assim e é assim que mergulham nos jogos eletrônicos e nas redes sociais, onde não precisam olhar nos olhos nem encarar conflitos. Tornam-se cada vez mais sós. Até aquela coisa da vizinhança amiga, onde o filho de um tomava café na casa do outro, se perdeu. Hoje, todos desconfiamos de todos e, na maioria das vezes, nem sabemos o nome do vizinho de porta.

Nossas crianças e jovens estão crescendo assim, enquanto nós – adultos – assistimos os noticiários que só falam de corrupção e violência e continuamos vivendo como se essas informações fizessem parte de uma realidade que não é a nossa. Nós, adultos, ficamos semanas e mais semanas comentando um atentado terrorista que matou 5 pessoas na Europa e nem prestamos atenção que, na Somália, outro atentado matou mais de 300... Mas onde é mesmo a Somália? Não interessa.... Ficamos arrasados com a notícia do adolescente que matou seus colegas numa escola particular em Goiânia, mas nem temos noção de quantos adolescentes têm morrido nas escolas da Rocinha e dos bairros de periferia de nosso país. É assim. Conscientemente ou não, a mensagem subliminar que passamos às nossas crianças e a nossos jovens é, no mínimo, esquisita, afinal, vida é vida, independente do lugar em que ela esteja. Estamos fechados em nossas conchas, atrás de tantas grades que vamos nos esquecendo das coisas que valem a pena na vida. Esquecemos de amar!

Está faltando amor no nosso mundo e em nossos corações, amor verdadeiro, aquele que nos faz  ser quem somos e acolher as diferenças dos que convivem conosco, sabendo que essas diferenças só nos farão crescer. Amor que nos inspira a cuidar e a respeitar o outro. Está faltando em nós, a experiência do amor, que é muito diferente das falas xamegosas de “eu te amo”. Está faltando em nós, ser presença uns para os outros, olhar para quem está de nosso lado, conhecer quem convive conosco.  Está faltando escolher uma escola para nossos filhos, pelos valores que a permeiam e não pelo número de aprovações no vestibular que ela apresenta nos outdoors. Está faltando em nossas famílias, sentar na mesa juntos na hora do almoço para repartir o frango, negociando quem vai comer as coxas, as asas e as partes que cada um gosta mais... Sair no domingo para andar de bicicleta... Sentar para estudar. Deitar na cama para contar como foi nosso dia e dividir nossos medos, mostrando que a vida não é um conto de fadas e que, nem sempre, conseguimos ter o que desejamos.

Quem pegou a bússola para nos mostrar o caminho que precisamos seguir? Vamos nos olhar, procurar em nossos bolsos e escutar nossos corações. Deixemos de lado o ímpeto de dividir as pessoas em vítimas e culpados, fracas e fortes, gordas e magras, pobres e ricas, certas e erradas e cuidemos melhor uns dos outros. Não esperemos novos atentados,  seja lá em que parte do mundo for. Não esperemos que mais um jovem atire em seus colegas ou se jogue do 30° andar do prédio onde mora. Vamos conversar mais, prestar mais atenção uns nos outros, ver além das aparências, sem julgar. Vamos transformar nossa indignação em inquietação e nossa inquietação em atitudes! Vamos?

Cá no fundo do meu coração, desconfio que cada um de nós tem uma bússola em sua mão. E ela aponta o caminho de um em direção ao outro. Vamos lá ! Tire sua bússola do bolso, vem pra cá, eu vou pra aí. Que nossas diferenças não criem paredes entre nós! Que nossas verdades não sejam absolutas, mas que tenham braços para abraçar a verdade do outro! Que tenhamos consciência de que todos precisamos uns dos outros! Que lembremos, dia a dia, que educar é dar limites e saber dizer não, assim como é valorizar os tesouros que cada um traz no coração.  Que procuremos compreender mais e julgar menos... E amar de verdade.

Escrevendo aqui, comecei a sentir meu coração pulsar de um jeito diferente... Sinto a esperança mostrar sua primeira folhinha, ao brotar. Começo a acreditar que somos capazes de sair da piscina de bolas e correr pelos jardins, sentindo a liberdade que nos foi dada de presente. Somos capazes, sim,  de nos afastar da multidão e pegar pela mão quem está perto de nós, pra brincar de roda, pra sentar no chão, pra olhar nos olhos e, juntando nossas bússolas e nossa vontade de ser feliz, fazer uma história diferente.

domingo, 24 de setembro de 2017

No que deu? Deu em vínculos de afeto que alimentam nossas vidas!

       



Estava na missa quando, na Comunhão, escutando a música "Chega Mais Perto", meu coração voou de volta à tarde de sábado.

"Essa amizade não tem barreira
não tem limite não
um vira três e três vezes nove
logo é uma multidão

Mundo pequeno pra tanto amor,
Pai, vê se aumenta esse mundo..."

Num evento até bem profano, a presença do sagrado estava nos vínculos que uniam os presentes e na reverência aos mestres e fundadores do colégio criado há 40 anos.

Estou falando aqui da festa "No que deu", que reuniu os ex-alunos do Colégio São Paulo (Salvador - Bahia). Como disse Lu, uma das organizadoras do encontro, "o mundo tá muito ruim, a gente precisa de eventos assim para se reabastecer, lembrando do que é realmente importante".

Importante, na vida, é alimentar amizades que superam distâncias, é resgatar o que foi constituinte de nossa história, é reconhecer a importância de quem participou ativamente de nossa educação, é recarregar as energias com o bem que nos habita, para recomeçar novos dias, novas etapas, com mais esperança.

Ontem experimentamos o importante em nossas vidas em cada abraço, em cada sorriso, em cada "você lembra de mim?. Ontem experimentamos o importante escutando Reverendo Enoch falar sobre Educação (com E maiúsculo mesmo),  abraçando ex-professores, relembrando histórias. Ontem, experimentamos o importante lembrando dos nomes de cada colega e do quanto eles foram importantes naquele momento de nossas vidas e muitos ainda o são, mesmo que haja mais de 30 anos desde o ultimo encontro.

Não vou multiplicar as palavras, mas quero eternizar esse momento em meu coração. Quero guardar a saudade dos amigos que já não vejo há muito tempo e também a emoção de cada abraço recebido.

Como é bom olhar pra trás e ver uma história construída a várias mãos! Como é bom olhar para frente e sentir que existe um futuro a ser escrito com base em cada aprendizado! Como é bom viver o presente e sentir o coração pulsar feliz!



terça-feira, 19 de setembro de 2017

Santa Teresa das mãos do artista




Como pode um artista, com suas mãos,
tornar verdade a profundidade do olhar de uma santa?

Como pode um artista, com sua inspiração,
traduzir a singeleza do sorriso de uma santa?

Como pode a arte
trazer a presença da verdade contida 
na vida de uma santa?

Como podem corações palpitarem assim tão forte
no encontro do concreto e do palpável
com a indizível experiência
que nasce do espírito?

Como pode uma riqueza, de valor inestimável,
estar esquecida, numa cidade escondida
no interior de um país tão pobre?

É Deus a nos surpreender sempre!
É a riqueza do ser humano a nos surpreender sempre!
É a oração que se traduz
na arte de quem se doa.

É a grata surpresa da simplicidade 
que abraça o divino
e faz nossa alma dançar
ao som da cantoria dos anjos no céu
a descortinar o véu
que esconde os tesouros mais valiosos.

São as maravilhas
que só os olhos que se elevam,
enxergam!
São as dádivas
que os os corações que procuram,
encontram.

(uma homenagem ao artista Veiga Valle)

domingo, 3 de setembro de 2017

O valor da vida


Ao longo da vida, a relação que temos com a morte vai mudando. A partir de um determinado momento, a notícia de que ela abraçou alguém vai se tornando bem mais frequente do que gostaríamos. Já não são os avós de nossos amigos que falecem, mas seus pais e os próprios amigos.
A forma como cada um lida com a morte é diferente, (afinal, somos diferentes!) varia de acordo com o contexto, a espiritualidade, a forma como encaramos esse tempo que passamos no planeta.  Algumas coisas, entretanto, sempre aparecem: a pergunta “e se?” é uma delas.  Isso porque, seja em que circunstância for, a morte sempre nos pega de surpresa.
 Apesar dessa introdução, não é sobre a morte que eu quero falar, mas sobre a vida! Trouxe a questão da morte porque, na idade madura, essa é uma experiência que nos chacoalha em relação à nossa própria vida e à vida dos que amamos. Dentre as tantas oportunidades de enxergarmos as possibilidades de viver a vida de forma mais verdadeira, a percepção da morte é uma das mais marcantes. A cada velório, a cada cremação ou sepultamento, ficamos  de frente com a nossa vulnerabilidade e efemeridade. Daí, duas perguntas passam a nos inquietar:
1.    O que temos feito de nossa vida?
2.    O que temos feito de nossas relações?
Pensando na primeira pergunta, viajo na questão do tempo. Como aproveitamos mal o tempo que temos! Quanto tempo perdemos em reclamações, lamentações, deixando passar batidos, momentos que não se repetirão, encontros que não voltarão.  Quantas vezes, em vez de “sacudir a poeira e dar a volta por cima”, ficamos amargando a rinite que a poeira nos traz! Quantas vezes, em vez de fazer das situações, aprendizado, ficamos remoendo mágoas e insatisfações... Quantas vezes, em vez de escrever de lápis, as tristezas e aborrecimentos, para que possamos apagá-los tão logo virem passado, riscamos e rabiscamos os incômodos de caneta e passamos a vida sem conseguir apagá-los, muitas vezes, culpando-nos pela forma como os escrevemos...
Complicamos muito o que poderia ser simples ! Colocamos foco no que não é importante e só percebemos o que era importante de verdade, depois que passa. Aí  ficamos repetindo os “e se?” sem encontrar respostas.  O bom é que a vida não desiste de nós e está sempre nos dando a oportunidade de recomeçar o novo capítulo de um jeito diferente.  Fico pensando que isso pode ser mais simples do que imaginamos, já que não precisamos deixar de ser quem somos. Ao contrário do que muitas vezes achamos, não precisamos mudar nosso jeito de ser nem de amar, talvez  precisemos só calibrar nossos pneus e andar na velocidade certa. Precisemos só limpar as lentes embaçadas para enxergar melhor quem caminha perto da gente. Precisemos nos aceitar, acolher nossas dificuldades e espinhos, sem renegá-los, mas compreendendo-os e trabalhando neles, sempre que possível...
Ainda sobre quem somos, penso que precisamos  amar quem somos. Deixar de lado o que a publicidade coloca como perfeição e o que as pessoas esperam de nós. Amar-nos como somos. Colocar nossos dons a serviço de quem precisa, sim, mas doar, também, um pouco do nosso tempo, para cuidar de nós mesmos. Nós também precisamos de nosso cuidado e de nosso carinho.... Às vezes, esquecemos disso! E vale lembrar que isso não é egoísmo, é amor também. Se Deus nos deu avida como bem mais precisoso, cuidar dela é ato de amor! Se a gente não se cuida, não se ama, cresce a amargura, o cansaço e aí, sim, o que poderia ser amor acaba se tornando egoísmo, pois passamos a colocar foco no nosso umbigo, nos nossos problemas, nas nossas dores, nos nossos medos, nas nossas dificuldades. Assim, deixamos de enxergar o outro!
Passando para a segunda pergunta, fico pensando que, se tivéssemos uma bola de cristal nas mãos a nos mostrar o último dia daqueles que amamos, agiríamos diferente. O “e se?” que surge nesse caso vem sempre cheio de culpas e cobranças e, muitas vezes, esquecemos que é no ordinário da vida que o amor se expressa da forma mais verdadeira. Ficamos achando que poderíamos ter sido mais presentes, ter dado mais carinho, enfim... Cobramos de nós, uma série de comportamentos e, na maioria das vezes, com lente de aumento. Que sempre podemos ser pessoas melhores, isso é fato, mas é fato também que o amor mais verdadeiro é, justamente, aquele que se expressa nas coisas mais simples. Enxergar o outro com os olhos do coração é tudo o que precisamos para cuidar melhor de nossas relações. Essa é a perspectiva do amor: o olhar, o cuidar, o ser...Na verdade do que somos e do que o outro é, nem mais, nem menos.
Na medida em que enxergamos as pessoas com quem convivemos como pessoas que não são extensões de nós mesmos, passamos a respeitá-las em sua individualidade e a ter relações verdadeiras. Relação entre dois sujeitos, duas pessoas.  Quando conseguimos nos relacionar assim, podemos ser nós mesmos, agir com espontaneidade, sem tentar ser o que o outro espera de nós. Encontro de afetos e de limites também! Penso que é importante  deixarmos de lado a expectativa de perfeição e colocar nossas fichas nas coisas que nos fazem viver a essência da vida! Aquelas coisas mais simples, um olhar, um sorriso, um copo de água, uma comidinha gostosa, um toque de carinho ou o compartilhar uma mensagem que achamos bonita... É dessas pequenas coisas que o amor vai se construindo.
Às vezes paro e vou passando um radar nas coisas do nosso cotidiano. Vejo o quanto nos perdemos em bobagens... Um se zanga porque o outro esqueceu o dia do aniversário, outro sai do grupo do wahtsapp por causa de discussão de futebol... É um que deixou com que uma atitude inesperada falasse mais alto do que toda uma história e outro que se magoou ao receber uma resposta que não gostou... Como somos bobos !!! Como nos perdemos facilmente do que é essencial. E as coisas do mundo parecem incentivar isso...Vamos ficando cada dia mais intolerantes e impacientes uns com os outros.
Aí, de repente, um infarto, um câncer, um acidente.... E.... Fica o quê?
Nesses dias, recebi pelo facebook uma pergunta que compartilhei e que ficou na minha cabeça e no meu coração por dias: “você é a saudade de quem?” Convido vocês a se perguntarem isso e a perguntarem também sobre quem é e quem poderá ser sua saudade.  Isso faz diferença!
Com essas respostas, faço o convite para que busquemos  reiniciar nossa trajetória com um novo olhar, na perspectiva de quem não quer passar por aqui em vão e de quem quer viver o presente como presente de Deus. O momento presente precisa ser, para nós, bem mais do que uma ponte entre o passado e o futuro, mas o instante em que experimentamos a vida com tudo o que ela tem a nos dar, curtindo a companhia de quem está ao nosso lado ( e a nossa própria companhia também!)
Tentemos descomplicar nossas relações, diminuir nossas culpas e nossas cobranças, pararmos por mais tempo para aproveitar o encantamento diante de uma flor, um passarinho, uma criança sorrindo, um casal se beijando...Coisas que acontecem todos os dias, todas as horas, mas que passam despercebidas por causa da nossa pressa e do foco que colocamos no que ainda virá.

Somos vulneráveis, efêmeros, finitos. Ao contrário do que pensamos, nosso “destino” não está em nossas mãos. Nelas, está a liberdade de vivermos cada minuto do jeito que escolhermosA felicidade não está do outro lado da ponte, não está na outra pessoa nem no pote de ouro, debaixo do arco-iris. A felicidade está no momento presente, quando o vivemos como experiência legítima do amor de Deus.
Qual o presente que vamos nos dar hoje?